fernão joanes (4)

joaquim vendeiro

ti zé camilo

tosquiada

Em Agosto prometemos voltar a Fernão Joanes para assistir à festa da Senhora do Soito e filmar uma tosquia feita pelos especialistas sobreviventes na arte de bordar ou enramar as ovelhas, o Ti Zé Camilo e o Ti Aristides. No tempo em que era pastor e tosquiador, o Ti Zé Camilo não via enfeitar as ovelhas nem assistia à festa. No segundo Domingo de Maio, data em que esta se realiza, estava ele no Alentejo. Era lá, pelas bandas de Portalegre, que começavam os seus dois meses de trabalho a tosquiar ovelhas, avançando para norte de rebanho em rebanho até chegar novamente a casa. Sempre à tesoura, a maioria era tosquiada rapidamente, de um lado ao outro. Mas pelo menos o carneiro tinha um tratamento especial: era enramado, como os cajados e tantas outras peças de arte pastoril, com motivos geométricos cuidadosamente bordados com a ponta da tesoura. O tosquiador fazia-o por brio, em competição com os restantes, às vezes contrariando o patrão que queria um serviço rápido, outras vezes recebendo da dona da casa uma compensação especial pela obra criada.

bordaleira

ti aristides

ti aristides

Não resisti à pergunta óbvia da origem dos motivos usados e o Ti Zé Camilo não se atrapalhou: vêm das cuecas das raparigas. Depois da risota geral corrigiu: dos saiotes que as raparigas da sua juventude usavam, com as suas barras de rendas e biquinhos. Já se sabe que os bordados e as rendas emprestam desenhos uns aos outros, e este não é excepção.

A prática de bordar as ovelhas raramente foi referida na bibliografia que conheço. Aliás a principal referência é a que aparece na Cartilha do Tosquiador, onde é considerada uma prática condenável. Mais recentemente, há imagens (sem texto) de uma tosquia semelhante à que vimos ontem no livro A Transumância e Fernão Joanes. Sonhos Transumantes (Guarda, Câmara Municipal da Guarda e Junta de Freguesia de Fernão Joanes, 2004).

ti zé camilo

ti zé camilo

8 comments » Write a comment

  1. Uau!… isto é super lindo! Nunca tinha vista… nem mesmo por aqui na serra da estrela! … A arte está mesmo em todo o lado!

  2. Fico contente por saber que este trabalho está aqui a vista de todos e tem recebido bastantes visitas! Infelizmente esta tradição está em extinção e temo que daqui a uns anos nimguem ligue minimamente a este assunto! :) Excelente post! :)) bom trabalhoo

  3. Rosa, absolutamente fascinante o bordado na pele da ovelha. Recordo-me de fotos dos primeiros anos de professora da minha mae, em aldeias da beira, com as ovelhas enfeitadas com flores de papel colorido que lhe eram oferecidas em ocasioes especiais.
    tenho muito pouca oportunidade de vir ate ao teu blog que antes visitava diariamente e acho incrivel a forma metodica e seria como te dedicaste `as las, mas confesso que de quando em quando me da uma saudade imensa de descobrir a boneca que fizeste nesse dia, de que tecido ‘e feita, que numero tem… :-)
    boa sorte nesta nova caminhada!

  4. Fiquei impressionada com esta informação! fui criada entre animais de quinta, especialmente ovelhas e nunca tinha ouvido falar nesta técnica.
    Obrigado Rosa!!!!!!

  5. Lá no Barroso recordam-se algumas mulheres de, nas bainhas dos saiotes, se fazerem ourelas em malha com fio de lã ou de algodão que chegavam a ter um palmo de altura e revelavam, quando as saias subiam, o primor das mulheres nas artes da agulha. Por altura das malhadas e das segadas, para mais facilmente se movimentarem, as mulheres prendiam pela anca, com a ajuda de uma faixa de tecido, as saias, fazendo com que as bainhas subissem alguns centímetros e revelassem a ourela dos saiotes vermelhos. A ourela também impedia que o pano de chiscado roçasse constantemente nas pernas e as machucasse.

  6. Uma tosquia extremamente fina! Nunca tinha ouvido falar nisto e estou impressionada com a sofisticação da técnica. Será que estraga assim tanto a lã? Mesmo assim, vale a pena só pelo resultado final.

  7. That is truly interesting and shows how talented the shearer is. I hope this is one of the traditions that is kept alive and taught to the next generation of shearers.

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