mondegueira

churra mondegueira
churra mondegueira
mondegueira

Muita da nossa lã vale menos do que a mão de obra necessária para a tosquiar (a lã da maioria das nossas raças churras vale em geral menos de €0.25/kg). A sua progressiva desvalorização ao longo dos últimos cinquenta anos criou uma espécie de ciclo vicioso difícil de quebrar: quanto menos vale a lã menos o pastor se preocupa com ela -> não vale a pena escolher e cruzar os exemplares com lã de melhor qualidade -> a lã do rebanho piora de geração em geração -> a falta de qualidade da lã fá-la valer cada vez menos -> …
A história das raças também me parece muitas vezes mal contada, com os estudos a dizer umas coisas e os pastores outras e o cruzamento entre a investigação das ciências duras e os dados etnográficos eternamente por fazer.
Em Figueira de Castelo Rodrigo voltei a cruzar-me com a raça Churra Mondegueira, que conhecia de perto do Museu dos Lanifícios da Covilhã. Apesar de não ter chegado a escrever sobre esses dias, no ano passado fiz uma valiosa residência no museu onde, entre muitas outras coisas, trabalhei com a lã das duas ovelhas mondegueiras que lá moram. A sua característica mais interessante é ser, de todas as que conheço de perto, a única raça double coated (lamentavelmente não sei como se diz em português), ou seja com um velo composto por dois tipos diferentes de fibras: uma camada exterior extremamente grosseira e uma outra, junto à pele, muito fina e macia, a lembrar as fibras de alpaca. Hoje em dia a lã da maioria das ovelhas mondegueiras faz pensar em tapetes resistentes (oxalá houvera quem os fizesse) e pouco mais. Mas como seria há três gerações atrás? E como poderia voltar a ser?

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  1. É uma bola de neve… É de facto muito triste a situação de tantas raças autóctones, cada vez mais ameaçadas por falta de valorização no mercado por haver opções mais produtivas. E ao perder-se é património genético que não se recuperará. Quanto a double coated eu penso que se pode dizer dupla pelagem, pelo menos no caso dos cães pode!

  2. Olá Rosa. Concordo plenamente com a história do ciclo vicioso no qual a lã como matéria prima se encontra – e que não basta passar pela sensibilização dos pastores mas também criar canais como cooperativas, etc que criem a ligação entre o produtor e o consumidor.
    Também concordo contigo sobre a falta de coerência na classificação das raças e penso que isso muitas vezes pode ser um entrave grande à sua valorização (parece-me sempre que cada fonte que leio sobre as classificações das raças têm sempre variâncias …) (talvez um bom estudo para o teu próximo livro ?(: )
    Não sabia que a mondegueira era double coated – deve dar um toque bastante diferente!

  3. Há uns anos lavei uns velos de (alegada) Churra Mirandesa que tinham precisamente essa característica de dupla camada. Entrei em contacto com alguns produtores de ovelhas churras dos estados unidos (as Churro Navajo) que são conhecidas pelo double coat para confirmar. As semelhanças eram muitas entre os velos de dupla camada deles e os ’mirandeses’. Tentei encontrar o rebanho a que pretencia a lã mas como vinha de uma rima indeferenciada não consegui identificar. Mais uma história sobre as raças mal contada….? Ou haverá mais ovelhas churras com dupla camada de lã?

    • Filipa, é muito curioso o que dizes. Já trabalhei com Churra Galega Mirandesa e nunca lhe encontrei este sub-pêlo. A lã em si é muito diferente da da Mondegueira (a Mirandesa é muito mais fina, branca e lustrosa do que a Mondegueira). Mas é um assunto de que mesmo ao fim de vários anos sinto que ainda só levantei a ponta do véu…

  4. É um post interessante… se só trabalhou com duas ovelhas, não consegue saber as características duma raça. A raça Mondegueira, é o cruzamento entre a Bordaleira serra da Estrela com os Churros, Badano e do Campo, então dependendo do grau de cruzamento, aparecem animais com esse sub-pelo, que depende se tem mais sangue ou menos de bordaleiro. Acontece por vezes quando os animais não estão bem cuidados, ou em alturas de parição, a lã grosseira cair e ficar a lã mais fina porque é mais difícil de se desprender e até dá um mau aspecto ao animal. Na Churra Mirandesa acontece a mesma coisa, as ovelhas são cruzadas por vezes com a raça Castelhana Espanhola, porque é de maior tamanho e que também pertence ao tronco entre-fino das lãs e devem aparecer alguns animais com esse sub-pelo. É engraçado, ou caricato… ser este blog que faz algumas publicações sobre as raças portuguesas, e sobre os pastores, as várias associações das diferentes raças, até têm vergonha de dizer alguma coisa… já hoje a grande maioria dos portugueses desconhece totalmente, as nossas raças de animais domésticos. A minha mãe tinha um tear e ainda tenho uns tapetes desses grosseiros e algumas colchas.

  5. Talvez com o regresso ao interesse pela lã haja quem se aventure a criar e apurar espécies apenas com essa finalidade. Um novo desafio?

  6. Pingback: como lavar um velo de lã | A Ervilha Cor de Rosa

  7. Pingback: lã que pica | A Ervilha Cor de Rosa

  8. Pingback: Ovelhas e lãs portuguesas – the work of Rosa pomar – Wovember

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