mondegueira

mondegueira

mondegueira

Fiei na roda uma maçaroca da lã de ovelha churra mondegueira que lavei esta semana. Do que tenho observado, os velos desta raça são compostos por três tipos de fibras diferentes: uma camada exterior de fibras extremamente longas, grossas e lisas (que quando fiadas sozinhas produzem um fio que lembra a corda de sisal), uma camada interior de fibras muito mais curtas, finas e ligeiramente frisadas e ainda, por vezes, um tipo de fibras que estão soltas no meio das outras, grossas, curtas, ponteagudas e levemente frisadas, que já tenho ouvido chamar fios de prata e que só atrapalham (também as tenho visto nos velos de bordaleira da Serra da Estrela).
O fio que resulta desta lã não serve para fazer camisolas, mas daria uns belos tapetes. Pergunto-me que destino lhe é actualmente dado, visto que – apesar de comprada a baixíssimo preço – é canalizada para o circuito industrial. Desta maçaroca acho que vou fazer uma luva esfoliante. Tenho a certeza de que resulta e é totalmente livre dos abomináveis micro-plásticos que povoam a maioria dos produtos para o mesmo efeito.

da ovelha ao novelo

fiar a lã na retrosaria
roda de fiar

A minha roda de fiar, uma great wheel ou roda portuguesa de tipo 1, foi feita em São Miguel, nos Açores, por um carpinteiro para quem esta não foi (felizmente) uma encomenda invulgar ou excepcional. É muito semelhante às rodas do Baixo Alentejo e Serra Algarvia e funciona exactamente da mesma maneira, mas tem algumas diferenças: o fuso é de madeira e não de ferro, a roda propriamente dita é bastante maior e não tem manivela (para a fazermos girar pressionamos os raios na direcção desejada) e o suporte do fuso está montado em cima do banco da roda e não do lado esquerdo deste.

fiar a lã na retrosaria
fiar a lã na retrosaria

No workshop deste Sábado foi óptimo ter mais técnicas para partilhar com quem veio aprender a ir da ovelha ao novelo. Além do fuso, claro, todos puderam experimentar fiar na roda e também num caneleiro de ferro do Baixo Minho (caneleiro de tipo 1). Estes caneleiros (de que a Joana Sequeira fala aqui), ainda que muito elementares e pouco produtivos, podem ser usados com a mesma técnica da roda para fiar e torcer fios de qualquer espessura.

PS: um bocadinho do que se fez no Sábado.

fiar a lã na retrosaria

fiar nos açores

spinning wool

Na Lomba da Maia, em São Miguel, fia-se a lã na roda, mas a roda é aquilo a que no continente chamamos geralmente caneleiro (ou rodilheiro se estivermos em terras de Miranda) e que na maioria das vezes não é usado senão para encher as canelas para o tear. Tecnicamente um caneleiro desta tipologia (há outras) é uma roda de fiar de tipo 1 em ponto pequeno – o mecanismo é exactamente o mesmo mas para o operar há que estar sentado numa cadeira baixa. Fiar numa roda assim tão pequena acaba por não ser (julgo eu) muito mais produtivo do que fiar no fuso, mas ainda assim remete para uma relativa especialização da actividade. Comparadas com as do Continente, as rodas açorianas têm uma diferença de razão certamente secular: os fusos são integralmente feitos em madeira e não em ferro, o que permite que um bom carpinteiro (e há muitos) possa construí-las do início ao fim. A minha vem a caminho.

Mais rodas de fiar portuguesas.

Panos da Terra: um novo blog, totalmente aconselhado a qualquer pessoa que tenha lido este post até ao fim.

o fuso de tipo 4

fiandeira

Benjamim Pereira classificou os fusos portugueses em três tipos:
O tipo 1, com haste em madeira e volante (também chamado cossoiro, aquele disco em baixo que lhe dá equilíbrio e o ajuda a girar mais depressa), que ainda se vê no nordeste transmontano e, residualmente, nos Açores.
O tipo 2 compreende os fusos em que a haste de madeira é o elemento principal ou único. Podem ser bastante rudes ou muitíssimo delicados, podem ser pouco mais do que um pau ou ser elegantemente bojudos em baixo para girarem melhor, podem ser mesmo só em madeira ou ter o topo da haste em metal para fiarem mais fino.
O tipo 3 corresponde aos fusos do Baixo Alentejo e Algarve (como estes que estão na Retrosaria), que consta serem os mais directos descendentes dos fusos romanos. A haste é em metal e o volante ou é também em metal e forma uma peça única com a haste ou é um disco em cortiça. São muitíssimo mais pesados do que os outros dois tipos de fusos e usam-se (hoje em dia muito pouco) sobretudo para fiar o linho.
Mas e se houvesse outro tipo de fuso em Portugal, um fuso diferente que chegue para justificar dizer que pertence a outro tipo? Um fuso cujo parente mais próximo vive no país basco, no outro extremo da Península? Em Monchique, no Algarve, o linho da Sra. Maria Nunes é torcido num objecto chamado fiandeira. O da fotografia foi feito pelo marido mas a partir de um igual vindo de gerações anteriores. Por todo o país há fusos usados só para torcer (torcer é juntar dois fios e dar-lhes uma torção extra no sentido oposto ao da fiação para que fiquem mais equilibrados e resistentes), a que se chama frequentemente parafuso ou parafusa. Ora a fiandeira de Monchique é idêntica ao txoatile ou txabalie do país Basco e diferente de todos os outros fusos portugueses: tem uma haste em madeira que forma no seu topo um gancho (aproveitando nos exemplos tradicionais a forma da própria madeira) e um volante em cortiça que serve de bobine para o fio já fiado ou torcido. Para mim foi a descoberta do ano.

Txoatile
Txoatile, el huso vasco. Imagem ©Mundo Lanar.

fiar em santa maria

spinning in Santa Maria

carding and plying in Santa Maria

Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber, q o Ifante Dom Henrique meu muito prezado e amado tio nos enviou dizer q ell mandara lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores, e q se nos aprouvese que as madaria pobrar. (…)
Carta régia de D. Afonso V dando licença ao Infante D. Henrique para povoar as sete ilhas dos Açores. 1449 (fonte).

Flashback de Abril: uma tarde passada na freguesia de Santo Espírito, na ilha de Santa Maria, com um grupo de mulheres de cuja vida a lã fez parte durante muitos anos e que mantem bem vivos os gestos do seu trabalho (até aos meados dos anos 70 a produção caseira de camisolas de lã fiada à mão era um complemento importante do orçamento de muitas famílias marienses). Das ovelhas que por lá se criaram desde o século XV ainda sei pouco. Agora abundam as Romney Marsh e Suffolk, introduzidas (dizem os criadores) com apoio do Estado em detrimento das raças autóctones (?!), entretanto desaparecidas (?!). Mas mesmo a lã longa e suave das Romney acaba muitas vezes no lixo, aqui como no Faial e por todo o arquipélago, nos locais em que as ovelhas ainda não deram de vez lugar às omnipresentes vacas.
Em Santa Maria fia-se como no Pico, em fusos leves de tipo 1 que se apoiavam no chão (tosquiava-se e fiava-se sentado no chão) e se pousam agora numa cadeira. Neste pequeno vídeo podem ver-se as operações de cardar, fiar e torcer, num dia em que a névoa açoreana se mostrava em todo o seu esplendor:

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