miguel de joão

miguel e joão
miguel e joão
Entre ver crescer o meu bebé que de repente já quase anda, tomar conta da Retrosaria onde todos os dias há novidades e planear a campanha da de 2017 vou inventando tempo para continuar à procura de imagens, histórias e pontos das malhas portuguesas. Tenho em mãos um modelo de gorro baseado nas barretas de São Miguel (de que falei no livro mas sobre as quais já aprendi muito entretanto). Desenhei-o para ser tricotado em João e as instruções já estão nas mãos das revisoras voluntárias. Espero tê-las disponíveis no início de Fevereiro.

Em 1975, data desta divertida imagem que encontrei hoje de manhã enquanto o A2 dormia, as barretas já sobreviviam apenas como adereço folclórico (sendo que se não fosse o folclore teriam desaparecido de todo) e tinham perdido o detalhe e aprumo das mais antigas, mas continuavam inconfundíveis.

O levantamento das técnicas e motivos das malhas tradicionais do sul da Europa continua essencialmente por fazer. Adorava que alguém em Espanha editasse algo semelhante ao Malhas Portuguesas, conhecer melhor o que se tricota(va?) nas aldeias gregas ou ter um livro feito na Turquia a ilustrar esta técnica de tricotar e bordar ao mesmo tempo.

malhas da pesca

malhas da pesca
malhas da pesca

A primeira edição do workshop Malhas da Pesca no Museu Nacional de Etnologia foi ontem e à hora de ir embora ninguém queria parar de tricotar. Para mim foi um prazer poder ensinar naquele espaço e um privilégio ser responsável por algumas peças muito especiais terem saído das reservas para estarem temporariamente à vista de todos numa mini-exposição a que o museu chamou Da Matéria aos Usos: Malhas de Lã da Póvoa de Varzim.
A 16 de Janeiro repetimos a iniciativa e, até lá, há tricot para ver no átrio do Museu.

A muitos quilómetros de distância, inaugurou há pouco tempo uma exposição inteiramente dedicada ao tricot na Holanda que adorava ver. É no Fries Museum, em Leeuwarden. Já esteve de certeza mais longe o dia em que por cá se fará uma coisa semelhante.

Da Matéria aos Usos: Malhas de Lã da Póvoa de Varzim. Átrio do Museu Nacional de Etnologia. A partir de 5 de Dezembro.

malhas da pesca
malhas da pesca
Mais imagens do workshop.

malhas da pesca

malhas da pesca
Malhas da Pesca • Workshop no Museu Nacional de Etnologia • 5 de Dezembro de 2015

Forma de relaxamento, hobby da moda, pretexto para conviver. Técnica têxtil. Provocação. Integração. Ligação aos avós e aos avoengos. História, memória, cultura material e património imaterial. Podemos fazer tricot por cada uma destas razões, por todas elas ou sem razão nenhuma.
Olho para a malha como uma língua das mãos, uma língua franca que tanto se fala nas aldeias com quem também faz como se lê nos museus das peças de quem fez, décadas ou séculos antes.
No próximo dia 5 de Dezembro entro no Museu de Etnologia para fazer uma coisa que, atrevo-me a dizê-lo, nunca antes se fez por cá: ensinar tricot num dos nossos museus nacionais a pretexto de e, ainda melhor, na presença de várias peças da colecção escolhidas de propósito para o evento. É um precedente que se abre e que nos coloca um belo passo mais perto dos países (sobretudo do norte da Europa), onde se sabe melhor ouvir o que as mãos têm para contar. Vemo-nos por lá!

de coruche

meias de maioral
coruche

No Sábado estive em Coruche para apresentar o meu trabalho no âmbito da Bienal de Artes que está em curso. Foi uma apresentação ao ar livre, com um público surpreendentemente interessado e participativo, sem o habitual projector e écran, pelo que levei comigo uma série de peças especiais para mostrar (na fotografia tenho na mão uma barreta da ilha de São Miguel – falo delas no meu livro). Associada a esta participação está patente em Coruche até Domingo uma exposição intitulada Espaço Malhas (junto ao mercado) onde, entre outras coisas que justificam o passeio, é possível ver uma verdadeira raridade dentro das malhas portuguesas: vários pares de Meias de Maioral, uma especialidade Ribatejana totalmente caída em desuso há várias décadas. Sobre estas meias, também referidas no livro mas sobre as quais aprendi muito entretanto, vou ter oportunidade de falar mais em breve.

boro

boro
boro

De todas as maneiras que os panos têm de falar por nós, esta é a que me atira ao tapete. Remendos, camadas, o azul dos azuis, o equilíbrio dos fios sem brilho e das costuras sem régua, a eterna constatação de que a perfeição nasce do ter de fazer, da necessidade absoluta de tapar e aconchegar com o que há, com quase nada.

Boro, no MuDE até 8 de Fevereiro.

boro
boro

fiar nos açores

spinning wool

Na Lomba da Maia, em São Miguel, fia-se a lã na roda, mas a roda é aquilo a que no continente chamamos geralmente caneleiro (ou rodilheiro se estivermos em terras de Miranda) e que na maioria das vezes não é usado senão para encher as canelas para o tear. Tecnicamente um caneleiro desta tipologia (há outras) é uma roda de fiar de tipo 1 em ponto pequeno – o mecanismo é exactamente o mesmo mas para o operar há que estar sentado numa cadeira baixa. Fiar numa roda assim tão pequena acaba por não ser (julgo eu) muito mais produtivo do que fiar no fuso, mas ainda assim remete para uma relativa especialização da actividade. Comparadas com as do Continente, as rodas açorianas têm uma diferença de razão certamente secular: os fusos são integralmente feitos em madeira e não em ferro, o que permite que um bom carpinteiro (e há muitos) possa construí-las do início ao fim. A minha vem a caminho.

Mais rodas de fiar portuguesas.

Panos da Terra: um novo blog, totalmente aconselhado a qualquer pessoa que tenha lido este post até ao fim.

(des)contexto

the killing sweater copy
Springfield, Novembro de 2014. Camisola em fibras sintéticas idêntica à que é usada pela personagem Sara Lund na série dinamarquesa The Killing. A camisola original, em 100% lã e inspirada por motivos tradicionais das ilhas Faroe, foi concebida por Gudrun & Gudrun.

anthropologie viana
Scrolled Vines Apron (Style No. 7532601482556). Avental da marca Anthropologie com motivos de bordados de Viana do Castelo.

But can I have it both ways? If I want to ditch narrow nationalist associations in favour of a more diverse and fluid and culturally relative idea of knitting and design, why does this (…) still inspire in me a sensation of mild offence?

Kate Davies, knitwear and cultural relativism.

Para pensar.

cobertores de papa

cobertor de papa
cobertor de papa

A história recente dos cobertores de papa está cheia de voltas difíceis de entender e de aceitar. Para trás não há grande investigação feita (apesar de darem nome a duas publicações da Câmara da Guarda) nem há quem tenha ainda percebido que papa é esta ou este que lhes está no nome. Fui novamente atrás deles por causa de mais uma aventura da Retrosaria (a mostrar em Setembro) e descobri que a meio do século XVI já se faziam (chamados assim tal e qual) em Castelo de Vide e também que já se usavam nas estalagens de Lisboa, onde eram considerados mais luxuosos do que as mantas alentejanas.
O que é bom saber é que a produção artesanal dos cobertores de papa foi agarrada in extremis pela Escola de Artes e Ofícios do Centro Social e Paroquial de Maçaínhas. Há um jovem tecelão a trabalhar e uma pequena equipa com garra e boas ideias para que este ex-libris da tecelagem portuguesa se mantenha de boa saúde.

as mantas de pêlo de cabra


candal

Na pesquisa para o meu livro encontrei uma referência breve e misteriosa à fiação de pêlo de cabra em Portugal. Não adiantava pormenor nenhum mas deixou-me sempre a pensar nisso e sabia que era uma história diferente da das rendas. No fim de 2012 fomos de Arouca a Tebilhão e ao fazer algumas perguntas sobre a maneira de por lá se fiar a lã falaram-me nas antigas mantas do pêlo das cabras que se usavam na aldeia. Infelizmente já não havia nenhuma para me mostrarem, nem a memória delas estava viva que chegasse para ficar a saber mais alguma coisa. Só pude supor que as cabras em causa fossem as da raça Serrana, única das nossas autóctones com pêlo comprido. Há poucos dias fomos de Viseu a Candal, lá muito perto, e no meio da história do casamento da D. Luísa eis que soam as palavras mágicas. Pergunto-me se em algum fundo de alguma arca sobreviverá ainda um destes cobertores.

amor de pastor

pompom
pompom

Quem por aqui vai passando já se deve ter cruzado com algum de muitos posts sobre o hábito que sobrevive em algumas aldeias da Serra da Estrela de enfeitar os rebanhos com pompons (lá são bolras, ou pêras, ou medronhos) em ocasiões especiais (normalmente romarias associadas aos ritmos da transumância). Ora no ano passado eu e as meninas decidimos que para subir a serra a preceito com os pastores e o gado também tínhamos de fazer alguns pompons e de oferecer um como lembrança ao maioral. Sem querer fomos promovidas a fazedoras de pompons de grande categoria e este ano vejo-me a braços com uma encomenda: quarenta pompons para enfeitar um rebanho que há-de ir a preceito nas romarias que aí vêm (é agora, entre Maio e Junho, que acontecem estas festas quase desconhecidas de todos os que não são pastores). Lembrei-me que podia pedir ajuda: não somos só nós que gostamos de fazer pompons e há de certeza mais quem tenha restos de lã colorida em casa e vontade de contribuir para que esta tradição continue viva. As regras são poucas e simples: os pompons têm de ser grandes (os nossos têm 85mm de diâmetro) e densos, coloridos e, sobretudo, muito resistentes. O meu conselho é atá-los não com lã mas com fio de norte, deixando umas pontas de fio bem compridas para que possam depois ser colocados nos bodes. Podem ser feitos à mão como os fazem os pastores, com cartão ou com máquina, o que interessa é que cheguem à Retrosaria antes do fim de Maio. Alguém alinha?

PS: convém fazer os pompons aos pares, para se usarem um de cada lado como se vê na foto de baixo.

pêras e cabeçadas

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