fiar nos açores

spinning wool

Na Lomba da Maia, em São Miguel, fia-se a lã na roda, mas a roda é aquilo a que no continente chamamos geralmente caneleiro (ou rodilheiro se estivermos em terras de Miranda) e que na maioria das vezes não é usado senão para encher as canelas para o tear. Tecnicamente um caneleiro desta tipologia (há outras) é uma roda de fiar de tipo 1 em ponto pequeno – o mecanismo é exactamente o mesmo mas para o operar há que estar sentado numa cadeira baixa. Fiar numa roda assim tão pequena acaba por não ser (julgo eu) muito mais produtivo do que fiar no fuso, mas ainda assim remete para uma relativa especialização da actividade. Comparadas com as do Continente, as rodas açorianas têm uma diferença de razão certamente secular: os fusos são integralmente feitos em madeira e não em ferro, o que permite que um bom carpinteiro (e há muitos) possa construí-las do início ao fim. A minha vem a caminho.

Mais rodas de fiar portuguesas.

Panos da Terra: um novo blog, totalmente aconselhado a qualquer pessoa que tenha lido este post até ao fim.

(des)contexto

the killing sweater copy
Springfield, Novembro de 2014. Camisola em fibras sintéticas idêntica à que é usada pela personagem Sara Lund na série dinamarquesa The Killing. A camisola original, em 100% lã e inspirada por motivos tradicionais das ilhas Faroe, foi concebida por Gudrun & Gudrun.

anthropologie viana
Scrolled Vines Apron (Style No. 7532601482556). Avental da marca Anthropologie com motivos de bordados de Viana do Castelo.

But can I have it both ways? If I want to ditch narrow nationalist associations in favour of a more diverse and fluid and culturally relative idea of knitting and design, why does this (…) still inspire in me a sensation of mild offence?

Kate Davies, knitwear and cultural relativism.

Para pensar.

cobertores de papa

cobertor de papa
cobertor de papa

A história recente dos cobertores de papa está cheia de voltas difíceis de entender e de aceitar. Para trás não há grande investigação feita (apesar de darem nome a duas publicações da Câmara da Guarda) nem há quem tenha ainda percebido que papa é esta ou este que lhes está no nome. Fui novamente atrás deles por causa de mais uma aventura da Retrosaria (a mostrar em Setembro) e descobri que a meio do século XVI já se faziam (chamados assim tal e qual) em Castelo de Vide e também que já se usavam nas estalagens de Lisboa, onde eram considerados mais luxuosos do que as mantas alentejanas.
O que é bom saber é que a produção artesanal dos cobertores de papa foi agarrada in extremis pela Escola de Artes e Ofícios do Centro Social e Paroquial de Maçaínhas. Há um jovem tecelão a trabalhar e uma pequena equipa com garra e boas ideias para que este ex-libris da tecelagem portuguesa se mantenha de boa saúde.

as mantas de pêlo de cabra


candal

Na pesquisa para o meu livro encontrei uma referência breve e misteriosa à fiação de pêlo de cabra em Portugal. Não adiantava pormenor nenhum mas deixou-me sempre a pensar nisso e sabia que era uma história diferente da das rendas. No fim de 2012 fomos de Arouca a Tebilhão e ao fazer algumas perguntas sobre a maneira de por lá se fiar a lã falaram-me nas antigas mantas do pêlo das cabras que se usavam na aldeia. Infelizmente já não havia nenhuma para me mostrarem, nem a memória delas estava viva que chegasse para ficar a saber mais alguma coisa. Só pude supor que as cabras em causa fossem as da raça Serrana, única das nossas autóctones com pêlo comprido. Há poucos dias fomos de Viseu a Candal, lá muito perto, e no meio da história do casamento da D. Luísa eis que soam as palavras mágicas. Pergunto-me se em algum fundo de alguma arca sobreviverá ainda um destes cobertores.

amor de pastor

pompom
pompom

Quem por aqui vai passando já se deve ter cruzado com algum de muitos posts sobre o hábito que sobrevive em algumas aldeias da Serra da Estrela de enfeitar os rebanhos com pompons (lá são bolras, ou pêras, ou medronhos) em ocasiões especiais (normalmente romarias associadas aos ritmos da transumância). Ora no ano passado eu e as meninas decidimos que para subir a serra a preceito com os pastores e o gado também tínhamos de fazer alguns pompons e de oferecer um como lembrança ao maioral. Sem querer fomos promovidas a fazedoras de pompons de grande categoria e este ano vejo-me a braços com uma encomenda: quarenta pompons para enfeitar um rebanho que há-de ir a preceito nas romarias que aí vêm (é agora, entre Maio e Junho, que acontecem estas festas quase desconhecidas de todos os que não são pastores). Lembrei-me que podia pedir ajuda: não somos só nós que gostamos de fazer pompons e há de certeza mais quem tenha restos de lã colorida em casa e vontade de contribuir para que esta tradição continue viva. As regras são poucas e simples: os pompons têm de ser grandes (os nossos têm 85mm de diâmetro) e densos, coloridos e, sobretudo, muito resistentes. O meu conselho é atá-los não com lã mas com fio de norte, deixando umas pontas de fio bem compridas para que possam depois ser colocados nos bodes. Podem ser feitos à mão como os fazem os pastores, com cartão ou com máquina, o que interessa é que cheguem à Retrosaria antes do fim de Maio. Alguém alinha?

PS: convém fazer os pompons aos pares, para se usarem um de cada lado como se vê na foto de baixo.

pêras e cabeçadas

o barrete vermelho

paineis
paineis
Políptico São Vicente de Fora, atribuído a Nuno Gonçalves, Século XV [c. 1450-1490] (pormenores).

Porque me apetece marcar em breve um workshop de crochet tunisino, fui à procura de imagens da Tunísia, para tentar perceber se há uma relação entre a técnica e o país ou se é um fenómeno como a salada russa e a bola de berlim. Fiquei sem saber, mas encontrei uma coisa que veio ao encontro de uma pista que há muito seguia, a propósito de algumas coberturas de cabeça que se usavam por cá entre o século XV e o século XVI. Sempre que revia os Painéis de S. Vicente achava que aqueles chamativos chapéus vermelhos podiam bem ser de malha. À partida a ideia parece descabida, porque estamos habituados a pensar na malha como uma coisa elástica e macia, moldada ao corpo. Mas no tempo dos painéis não era assim. As peças em malha eram muitas vezes feltradas (apisoadas?) até se tornarem rígidas (como uma camisola que foi acidentalmente lavada na máquina com água quente), moldadas para adquirirem determinado feitio, cortadas à tesoura e cardados para ganharem uma superfície aveludada. É aqui que entra a pista tunisina: o chapéu masculino tradicional do país, a chéchia, não só é feito exactamente assim como se considera que foi introduzido no século XVII por muçulmanos oriundos da Península Ibérica. O seu uso está actualmente em declínio, mas continuam a produzir-se da forma artesanal: segundo esta página a lã é fiada à mão em Djerba e Gafsa, os barretes em malha são tricotados pelas mulheres de Ariana, depois feltrados em El Batan (o nome é internacionalmente sinónimo de pisão), cardados em El Alia, tingidos em Zaghouan e finalmente enviados para Tunis, onde recebem os retoques finais, sendo novamente cardados com o mesmo cardo que por cá se usou até nas primeiras máquinas da revolução industrial, e vendidos em Tunis. Infelizmente só encontrei imagens da última fase do processo, mas fiquei convencida. Acho mesmo provável que em Lisboa os muitos barreteiros documentados para 1551 e 1552 estivessem no fim de uma cadeia de produção semelhante. As semelhanças entre algumas chéchias e os barretes dos painéis são óbvias, mas quem sabe… Read more →

coca-barretes

17th century dutch knitted hat
19th century portuguese knitted hat
20th century portuguese knitted hat

Um dos posts mais recentes da Knitting Genealogist, um blog que sigo atentamente, lembrou-me alguns dos barretes que não chegaram a ter espaço no meu livro. Este post da Penelope vem a propósito de um artigo escrito para a revista Piecework acerca do célebre General Carleton Cap (um barrete recuperado dos destroços do navio General Carleton, que naufragou em finais do século XVIII ao largo da Polónia), onde se tenta provar que o dito foi feito no Yorkshire em parte com recurso a uma gravura que ilustra duas coisas que quase toda a gente sabe: primeiro, quem vive no mar ou à beira dele gosta de usar barretes e, segundo, barretes às riscas são uma coisa mesmo bonita. Tão bonita que pelo menos desde o século XVII que eles por aí andam. Agora onde e quando é que foi tricotado o primeiro barrete de malha às riscas é coisa que nunca se vai descobrir. E muito menos se o primeiro foi pai dos outros todos ou (como é mais natural) ele foi unventado várias vezes em vários sítios diferentes por várias pessoas diferentes. Algumas delas, de certeza, copiaram o que viram usar a um homem do mar vindo de outras paragens. E também houve pescadores e marinheiros que trouxeram para casa barretes que trocaram com outros marinheiros por outras coisas bonitas, e eles ou as suas mulheres fizeram mais barretes pelo que trouxeram, uns iguais e outros parecidos. Foi assim durante tanto tempo que no fim do século XX ainda havia pescadores na Póvoa de Varzim a trabalhar de barrete às riscas feito à mão. E se calhar ainda há.

Imagens:
Jan Peeters e oficina, Paisagem com desembarque de holandeses em terras do Brasil, c. 1640 (pormenor).
Moço de Fretes – Lisboa – 1809-1819, Colecção Ruas de Lisboa. Reproduzido em Alberto de Sousa, O Trajo Popular em Portugal nos séculos XVIII e XIX, Lisboa, 1924 (pormenor).
Porto de Pesca – Lota (postal ilustrado), Póvoa de Varzim, Edição Binográfica (pormenor).

covilhã

Covilhã

Teia

Emquanto aos pannos da Covilhã, já veem elles celebrados em dois versos de Gil Vicente na sua Tragicomedia pastoril da Serra da Estrella:
E Covilham muitos pannos
Finos que se fazem lá.

Sousa Viterbo, Francisco Marques de, 1845-1910
Artes industriaes e industrias portuguezas; industrias textis e congéneres. Coimbra, Impr. de Universidade, 1904.

Uns dias passados na Covilhã, entre a universidade, o museu e as fábricas, onde todos têm a indústria no sangue dos pais e dos avós e se vive em socalcos ligados por pontes e elevadores. Paredes meias com fábricas gigantes abandonadas, sob as quais se descobrem outras ainda mais antigas (saídas das imagens da Enciclopédia), pode-se estudar para ser artesão têxtil ou operar um contínuo de penteação. Quem acha que o país é pequeno não o conhece. Read more →

fazer a liga para o cuco

No Ribatejo, no mesmo fim-de-semana em que encontrámos um grande campo de tulipas e um mini tocador de cana rachada, conhecemos a D. Lurdes Santiago, fazedora de meias nascida em Almofala, mesmo junto a Espanha. Entre outras coisas contou-nos como por lá se aprendia a fazer malha nos seus tempos de menina:

Pegavam em duas agulhas e num novelo de linha e davam às crianças para fazer, quando eram pequenitas. E então diziam assim: “vais fazer a liga para o cuco, que senão o cuco tira-te os olhos!”. (…) Compravam logo uma cestinha pequenina (…), metiam as duas agulhas, novelo e as avós ensinavam. Faziam, chamavam elas, a liga: era só a malha de liga por dentro e por fora, às vezes com quatro, cinco malhas, às vezes as malhas eram desta altura, mas faziam. E assim aprendíamos.

Um dos momentos da conversa de que gostei mais foi a descrição do jogo que as raparigas faziam para ver quem fazia malha mais depressa. Vale a pena ouvir.

Two weeks ago we’ve met Mrs. Lurdes Santiago, born in Almofala, a village very close to the spanish border. She told us how in her time little girls were given a small basket to carry on their arm, a ball of cotton yarn and a pair of hooked needles. Their grandmothers would say, half joking: “You’re going to knit a garter for the cuckoo, or the cuckoo will come and take away your eyes”. So they started by knitting a simple garter, purling all stitches (the purl stitch is the first and easiest stitch using the portuguese method).

a pleasing array of facts

campo grande

meia

ribatejo

By putting these questions to friend and foe, rich and poor, high and low, the city-bred and the country-bred, and by writing innumerable letters to dwellers in the mountains and lowlands I have collected a pleasing array of facts, names and patterns; but what are these by the side of the facts, names, and patterns that might still be collected?

Em 1912, Eliza Calvert Hall colocava a si própria esta questão na introdução ao seu A Book of Handwoven Coverlets (quem conhecer as mantas de puxados açorianas encontrará aqui muitos padrões familiares), fruto de um pioneiro trabalho pessoal de recolha em vários estados dos EUA. Hoje, a bordo da camioneta que me levou ao Ribatejo para um dia de revelações, revi-me novamente nestas palavras. Porque o livro não é um fim mas sim um início, um pé na porta que diz isto é assunto, isto merece ser olhado, estudado e exposto.

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