Aug
11


Com o calor que está não tenho conseguido trabalhar. Aproveito para ler alguns livros a que não resisti nos últimos meses e a que ainda não tinha dado a devida atenção.
Cheguei a este livro através da minha pesquisa sobre meias tradicionais portuguesas para um livro que estou a planear. É o catálogo da exposição homónima realizada no Centre de Documentació i Museu Tèxtil, instituição catalã dedicada à preservação, estudo e promoção da cultura têxtil, em 1997 (a edição é em Catalão e Castelhano). Para além da reprodução de 180 peças expostas, inclui vários textos interessantes sobre as malhas na indústria e outros de teor histórico. Montse Stanley
assina um resumo da história do tricot onde se reproduzem as peças tricotadas mais antigas encontradas na península ibérica (uma almofada e umas luvas do século XIII, estas últimas – porque o mundo é pequeno – pertencentes ao mesmo Rodrigo Ximénez de Rada cujas crónicas estudei na minha outra vida).
Continuar a ler »
Jul
23


No ano passado deixei aqui este apelo do Museu do Traje de Viana do Castelo. Quando, há umas semanas, fui finalmente visitar o museu encontrei o recém-publicado Uma Imagem da Nação – Traje à Vianesa. Foi a minha leitura de férias, e foi com imenso prazer que encontrei o meu nome na lista de agradecimentos (juntamente, entre muitos outros, com o da Mary). O livro é um estudo alargado e profusamente ilustrado do chamado traje à vianesa. Contextualiza historicamente a formação do traje (António Medeiros), descreve cada um dos seus elementos, a sua construção e matérias-primas (Benjamim Pereira) e organiza cronologicamente o seu uso e representações (João Alpuim Botelho). Por serem temas a que tenho dado particular atenção, soube-me a pouco a página dedicada ao lenço e às meias, sobre os quais muito mais haveria que dizer. Ficam para outras publicações, que espero que o Museu venha a editar.
Continuar a ler »
Jun
04

Tenho uma colecção crescente de tecidos portugueses antigos (com muitos riscados e algumas chitas preciosas pelo meio). Ao lado uns dos outros tornam-se ainda mais inconfundivelmente de cá, não sei se pela omnipresença deste azul meio cinzento.
Continuar a ler »
Jun
03

A boneca que a trajava é de plástico e desinteressante, mas não lhe resisti. Estava na feira de antiguidades do Príncipe Real, ontem à tarde, meio desprezada dentro de um saco. Agora apetece coser-lhe uma dona nova.
Petição em defesa do Museu de Arte Popular (quem quiser uma cópia do email oficial a anunciar a petição para enviar aos seus contactos, é só deixar um comentário nesse sentido).
Feb
24


Há uns meses cheguei através do Ravelry ao livro Fancy Feet: Traditional Knitting Patterns of Turkey
, de Anna Zilboorg. Depois desta outra descoberta, foi o que faltava para me pôr a pensar insistentemente sobre tricot de pontos metidos (é assim que se diz em Português?), ou stranded knitting ou jacquard. Até hoje nunca tinha dominado este tipo de tricot (como se nota aqui), porque o julgava incompatível com o trabalho ao pescoço. Tricotar com a lã ao pescoço ou presa num alfinete posto ao peito é a principal (mas não a única) forma tradicional portuguesa de fazer malha. É totalmente desconhecida em boa parte do mundo e aparentemente está em extinção nos outros países que a usaram deste lado do atlântico: Grécia, Turquia, Bulgária e creio que todos os outros países mediterrânicos (de cá terá sido levada para o outro lado do mar).
Ora acontece que não só o tricot à portuguesa não é incompatível com trabalhar com vários fios como torna o trabalho muito mais fácil. A ideia só me surgiu ao olhar para esta imagem (a senhora tem dois fios pendurados ao peito, um de cada lado): basta passar os dois fios por trás do pescoço, mas um para cada lado (ou seja, pondo um dos fios a subir pelo lado direito e a descer pelo esquerdo, prendendo-o no dedo médio da mão esquerda). Parece confuso durante uns minutos, mas foi como descobrir a pólvora.
O livro de Anna Zilboorg
está esgotadíssimo, mas ao fim de uns meses de espera consegui encomendar uma cópia a um preço não muito indecente. Tem uma introdução histórica interessante, onde explica que este género de meias (pelo menos com a perfeição e complexidade dos exemplos apresentados) já praticamente não se produz na Turquia, e é uma bem sucedida tentativa de preservar e difundir o seu modo de construção e vários padrões. Tanto quanto se percebe, a informação histórica e muitos dos padrões foram retirados da obra Knitted stockings from Turkish villages, de Kenan Özbel.
A amostra da primeira fotografia, com que estreei o livro, foi feita com a lã Kureyon Sock que, tanto pela consistência como pelas cores, me parece ideal para o efeito.
Continuar a ler »
Jan
21


Depois de se começar a fazer roupa ganha-se um apreço pelo trabalho e pelos materiais envolvidos que muda a forma de olhar para a que se vê nas lojas. Fica-se com mais respeito por quem a cria e faz e com menos por quem vende a preços tão baixos que implicam certamente a exploração de alguém. O passo seguinte (do meu percurso, pelo menos) é ponderar cada vez mais cada compra e comprar menos mas melhor. Depois há que saber compor, que é a parte aborrecida até se aprender a olhar para ela de outra maneira e que implica o domínio de técnicas em vias de extinção, como a de passajar. Neste campo tenho quase tudo por aprender, mas vou fazendo progressos. As pantufas velhas da E. renovadas para a A. com remendos (aliás rambend-uf, que é como ela diz) são um sucesso.
Darning / Passajar:
Caixinha do tempo e contents of the painted austrian box, o meu kit de compor meias e outro de longe mas de conteúdo quase igual.
Rato multifunções (via dite lulu).
Mended, de uma das minhas paragens diárias obrigatórias e Make Do and Mend
, para ler e aprender.
Imagem: Unidentified woman darning a sock from a story concerning the Ford Motor Company (pormenor), 1937.
Dec
29

Mais notas sobre estas meias que me têm fascinado ultimamente, e que ainda não vi com os meus próprios olhos:
Esta fotografia (ver mais abaixo) é do catálogo Como Trajava o Povo Português (Lisboa, INATEL, 1991, p. 124). As meias não são referidas pelo texto e têm um padrão muito bonito e mais complexo do que os outros que já tinha visto. A fotografia, infelizmente, não está identificada nem datada.
O catálogo/inventário Artesanato da Região Alentejo (Évora, IEFP, 2000), estranhamente, não dedica uma única linha às meias da Serra d’Ossa.
Recebi da Urraca, que também se interessa pela história do tricot, parte de um artigo da 100 Idées de Julho de 1977 dedicado ao artesanato português. Lá estão as meias.
A Manuela enviou-me um link para a Associação de Desenvolvimento Local de Redondo, que promoveu no ano passado um primeiro curso de meias da Serra d’Ossa. Contactei a associação e soube que o mesmo não chegou a realizar-se por falta de interessados.
Ainda não sei se há outras tradições em Portugal de tricot em jacquard, ou se esta é a única. Qual será a sua história?
Continuar a ler »
Nov
25

Com sete pares feitos até à data, ainda sou bastante ignorante no que diz respeito às meias de tricot, mas a minha curiosidade pelo assunto não tem parado de aumentar. Ultimamente tenho tentado saber mais sobre as que de fazem ou fizeram em Portugal. Neste post mostrei umas de Reguengos de Monsaraz e outras que são semelhantes a estas do Museu da Terra de Miranda. Que as há muito diferentes umas das outras é fácil de perceber puxando um bocadinho pela memória. Até agora as que mais me surpreenderam foram estas, tradicionais da Aldeia da Serra (Redondo). O livro de onde tirei a imagem – Artes e tradições de Évora e Portalegre
(Lisboa, Ed. Terra Livre, 1980) – dedica-lhes um pequeno capítulo em que diz que na altura da recolha já só eram feitas pela senhora na fotografia (a Tia Lisa, que tinha então 78 anos).
Nov
17

Woman knitting with kishie of peats (pormenor), Shetland, fim do século XIX ou início do século XX. Imagem do Shetland Museum Photographic Archive.
Há uns meses fui contactada de surpresa pela Rosarinho Caeiro, antropóloga, que me escreveu o seguinte:
Estou a trabalhar no Museu Nacional de Arqueologia que tem uma colecção de etnografia constituída pelo Leite Vasconcelos em finais do século XIX e parte do XX. Neste momento está a ser trabalhada a colecção de tecnologia têxtil. Existem umas agulhas cuja única referência que temos, em verbete do próprio Leite Vasconcelos, é a de que serviriam ‘para fazer meia’ e que já estariam em desuso na altura da recolha. Não sabemos onde foram recolhidas, nem conseguimos perceber como teriam funcionado (não são agulhas normais). (…)
Como é natural, fiquei muito curiosa e cheia de vontade de descobrir o que seriam estes instrumentos mas sem mais informações e sem os ver não consegui ser minimamente útil. Pesquisei o Google books e andei à procura de agulhas antigas de tricot, mas não fiz nenhum progresso.
Alguns emails depois, a Rosarinho conseguiu dar-me mais informações: afinal não eram agulhas mas antes ‘canhões para fazer meia que as mulheres usam à cintura’. São 3, têm 21, 23 e 25 cm de comprimento, em madeira, com entalhes decorativos e incrustações em chumbo. Uma das extremidades das peças, com cerca de 4 cm é em chumbo e é perfurada no topo (com profundidade de 3 a 4 cm). Também me enviou imagens das peças (mas não tenho autorização do museu para as mostrar aqui) e chamou-me a atenção para uma outra, idêntica, da colecção do Museu do Abade de Baçal, que está erradamente catalogada como canhão de tear.
Continuar a ler »
Nov
14

Fio de algodão e cinco agulhas de barbela. Falta a tinta Raposa para estar completo o material para tricotar umas meias destas, à alentejana. As cinco agulhas com barbela ainda se usam pelo país fora para tricotar meias com uma técnica que tenho de aprender um dia destes. A propósito de meias, vale a pena explorar as duas versões da base de dados do IPM (a Matriz e a mais recente MatrizPix). Deixo para depois alguma informação que tenho recolhido sobre uma outra misteriosa técnica usada até ao século XIX para fazer meias e fico-me para já por duas imagens (obrigada Joana pelo link para a MatrizPix):
Continuar a ler »