fiar nos açores

spinning wool

Na Lomba da Maia, em São Miguel, fia-se a lã na roda, mas a roda é aquilo a que no continente chamamos geralmente caneleiro (ou rodilheiro se estivermos em terras de Miranda) e que na maioria das vezes não é usado senão para encher as canelas para o tear. Tecnicamente um caneleiro desta tipologia (há outras) é uma roda de fiar de tipo 1 em ponto pequeno – o mecanismo é exactamente o mesmo mas para o operar há que estar sentado numa cadeira baixa. Fiar numa roda assim tão pequena acaba por não ser (julgo eu) muito mais produtivo do que fiar no fuso, mas ainda assim remete para uma relativa especialização da actividade. Comparadas com as do Continente, as rodas açorianas têm uma diferença de razão certamente secular: os fusos são integralmente feitos em madeira e não em ferro, o que permite que um bom carpinteiro (e há muitos) possa construí-las do início ao fim. A minha vem a caminho.

Mais rodas de fiar portuguesas.

Panos da Terra: um novo blog, totalmente aconselhado a qualquer pessoa que tenha lido este post até ao fim.

ovelhas daqui

sheep

Nos inícios dos século XX, de todas as ilhas dos Açores era em São Miguel que havia mais ovelhas. Actualmente são tão poucas que só se encontram com esforço. A sua criação não constitui uma actividade económica, a sua carne desapareceu das ementas e memórias e a sua lã acaba frequentemente no lixo. Aqui não há rebanhos: as ovelhas existem sobretudo porque ajudam no maneio dos terrenos comendo plantas que as vacas, por serem mais selectivas, deixam para trás. Umas e outras, diga-se, acabam o dia a ruminar a dieta de pasto cheio de fertilizantes complementada com rações importadas de milho transgénico, que esse é um retrato das ilhas ao qual é cada vez mais difícil fechar os olhos…

mondegueira

churra mondegueira
churra mondegueira
mondegueira

Muita da nossa lã vale menos do que a mão de obra necessária para a tosquiar (a lã da maioria das nossas raças churras vale em geral menos de €0.25/kg). A sua progressiva desvalorização ao longo dos últimos cinquenta anos criou uma espécie de ciclo vicioso difícil de quebrar: quanto menos vale a lã menos o pastor se preocupa com ela -> não vale a pena escolher e cruzar os exemplares com lã de melhor qualidade -> a lã do rebanho piora de geração em geração -> a falta de qualidade da lã fá-la valer cada vez menos -> …
A história das raças também me parece muitas vezes mal contada, com os estudos a dizer umas coisas e os pastores outras e o cruzamento entre a investigação das ciências duras e os dados etnográficos eternamente por fazer.
Em Figueira de Castelo Rodrigo voltei a cruzar-me com a raça Churra Mondegueira, que conhecia de perto do Museu dos Lanifícios da Covilhã. Apesar de não ter chegado a escrever sobre esses dias, no ano passado fiz uma valiosa residência no museu onde, entre muitas outras coisas, trabalhei com a lã das duas ovelhas mondegueiras que lá moram. A sua característica mais interessante é ser, de todas as que conheço de perto, a única raça double coated (lamentavelmente não sei como se diz em português), ou seja com um velo composto por dois tipos diferentes de fibras: uma camada exterior extremamente grosseira e uma outra, junto à pele, muito fina e macia, a lembrar as fibras de alpaca. Hoje em dia a lã da maioria das ovelhas mondegueiras faz pensar em tapetes resistentes (oxalá houvera quem os fizesse) e pouco mais. Mas como seria há três gerações atrás? E como poderia voltar a ser?

cobertor

cobertor
cobertor
cobertor

O novo fio da Retrosaria chama-se Cobertor e é o fio com que são feitos os cobertores de papa. É espesso e no novelo o toque não é suave. A textura e torção fazem lembrar os fios islandeses com que se fazem as camisolas lopi. Aquilo que o torna mesmo especial, para além dos 500 anos de história quase desconhecida à qual espero voltar por aqui, é o que se lhe pode fazer depois de o tricotarmos: com uma pequena carda ou uma escova de aço para cães pode levantar-se facilmente a camada de pêlo densa e fofa que caracteriza os melhores cobertores de papa. A paleta que criei para este fio tem doze cores, mais o branco amarelado e o castanho naturais das ovelhas que lhe dão vida. Agora sonho vê-lo transformado em casacos e outras coisas boas de vestir no Inverno.

PS: o belíssimo rótulo é da responsabilidade do Lord Mantraste.

cobertores de papa

cobertor de papa
cobertor de papa

A história recente dos cobertores de papa está cheia de voltas difíceis de entender e de aceitar. Para trás não há grande investigação feita (apesar de darem nome a duas publicações da Câmara da Guarda) nem há quem tenha ainda percebido que papa é esta ou este que lhes está no nome. Fui novamente atrás deles por causa de mais uma aventura da Retrosaria (a mostrar em Setembro) e descobri que a meio do século XVI já se faziam (chamados assim tal e qual) em Castelo de Vide e também que já se usavam nas estalagens de Lisboa, onde eram considerados mais luxuosos do que as mantas alentejanas.
O que é bom saber é que a produção artesanal dos cobertores de papa foi agarrada in extremis pela Escola de Artes e Ofícios do Centro Social e Paroquial de Maçaínhas. Há um jovem tecelão a trabalhar e uma pequena equipa com garra e boas ideias para que este ex-libris da tecelagem portuguesa se mantenha de boa saúde.

as mantas de pêlo de cabra


candal

Na pesquisa para o meu livro encontrei uma referência breve e misteriosa à fiação de pêlo de cabra em Portugal. Não adiantava pormenor nenhum mas deixou-me sempre a pensar nisso e sabia que era uma história diferente da das rendas. No fim de 2012 fomos de Arouca a Tebilhão e ao fazer algumas perguntas sobre a maneira de por lá se fiar a lã falaram-me nas antigas mantas do pêlo das cabras que se usavam na aldeia. Infelizmente já não havia nenhuma para me mostrarem, nem a memória delas estava viva que chegasse para ficar a saber mais alguma coisa. Só pude supor que as cabras em causa fossem as da raça Serrana, única das nossas autóctones com pêlo comprido. Há poucos dias fomos de Viseu a Candal, lá muito perto, e no meio da história do casamento da D. Luísa eis que soam as palavras mágicas. Pergunto-me se em algum fundo de alguma arca sobreviverá ainda um destes cobertores.

santo antónio em outeiro de espinho

cão
a caminho

Ao cair da tarde, quando começa a refrescar e o rebanho consente, começa a caminhada em direcção à capela. Paramos num pasto verde, onde as ovelhas procuram o trevo escondido pela erva brava. Dizem que hoje em dia são mais mimosas, que já não comem tudo como há trinta ou quarenta anos quando não tinham outra alternativa. Paramos mais à frente para beberem, não há pressa.

cão pastor
outeiro de espinho

Conversa-se na beira da estrada. A Francisca este ano quis ficar com o pai, ir à frente das ovelhas. Come pipocas cor de rosa e pergunta-me se também sou pastora.

chegada
chegada

Olhe que estou aqui só para o ver!
O Pula é saudado à entrada da aldeia. Traz o rebanho maior, o que mais gente espera ver correr em volta da capela. No Domingo que vem irá cumprir a romaria à Folgosa da Madalena. E no seguinte é dia de subir à Serra.

outeiro de espinho
romaria
romaria

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