#lãdosaçores

fiar

Uma semana em viagem para continuar um trabalho em curso sobre a lã nos Açores. Foi também o momento para ressuscitar o projecto Lã em Tempo Real, ao qual devo muitos gigabytes de gravações por todo o país ainda por editar.
Em São Jorge as rodas de tipo 2 (cf. Normas de Inventário da Tecnologia Têxtil) entraram (ou vulgarizaram-se) dos inícios do século XX e substituíram as que antes se usavam, de tipo 1 como em São Miguel. Chamam-lhes invariavelmente engenhos e já não há muitos a trabalhar, que a lã na ilha do Dragão, apesar das afamadas colchas, é coisa quase esquecida. Ela está lá, no entanto, no dorso das ovelhas tosquiadas só porque tem mesmo de ser, e é enterrada ou queimada todos os anos que os bichos são só para o petisco. Tantas contradições nesta ilha linda.

ovelhas
engenho
fios
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Cooperativa de Artesanato Senhora da Encarnação, Ribeira do Nabo, Ilha de São Jorge, Açores.

fiar nos açores

spinning wool

Na Lomba da Maia, em São Miguel, fia-se a lã na roda, mas a roda é aquilo a que no continente chamamos geralmente caneleiro (ou rodilheiro se estivermos em terras de Miranda) e que na maioria das vezes não é usado senão para encher as canelas para o tear. Tecnicamente um caneleiro desta tipologia (há outras) é uma roda de fiar de tipo 1 em ponto pequeno – o mecanismo é exactamente o mesmo mas para o operar há que estar sentado numa cadeira baixa. Fiar numa roda assim tão pequena acaba por não ser (julgo eu) muito mais produtivo do que fiar no fuso, mas ainda assim remete para uma relativa especialização da actividade. Comparadas com as do Continente, as rodas açorianas têm uma diferença de razão certamente secular: os fusos são integralmente feitos em madeira e não em ferro, o que permite que um bom carpinteiro (e há muitos) possa construí-las do início ao fim. A minha vem a caminho.

Mais rodas de fiar portuguesas.

Panos da Terra: um novo blog, totalmente aconselhado a qualquer pessoa que tenha lido este post até ao fim.

ovelhas daqui

sheep

Nos inícios dos século XX, de todas as ilhas dos Açores era em São Miguel que havia mais ovelhas. Actualmente são tão poucas que só se encontram com esforço. A sua criação não constitui uma actividade económica, a sua carne desapareceu das ementas e memórias e a sua lã acaba frequentemente no lixo. Aqui não há rebanhos: as ovelhas existem sobretudo porque ajudam no maneio dos terrenos comendo plantas que as vacas, por serem mais selectivas, deixam para trás. Umas e outras, diga-se, acabam o dia a ruminar a dieta de pasto cheio de fertilizantes complementada com rações importadas de milho transgénico, que esse é um retrato das ilhas ao qual é cada vez mais difícil fechar os olhos…

fiar em santa maria

spinning in Santa Maria

carding and plying in Santa Maria

Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber, q o Ifante Dom Henrique meu muito prezado e amado tio nos enviou dizer q ell mandara lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores, e q se nos aprouvese que as madaria pobrar. (…)
Carta régia de D. Afonso V dando licença ao Infante D. Henrique para povoar as sete ilhas dos Açores. 1449 (fonte).

Flashback de Abril: uma tarde passada na freguesia de Santo Espírito, na ilha de Santa Maria, com um grupo de mulheres de cuja vida a lã fez parte durante muitos anos e que mantem bem vivos os gestos do seu trabalho (até aos meados dos anos 70 a produção caseira de camisolas de lã fiada à mão era um complemento importante do orçamento de muitas famílias marienses). Das ovelhas que por lá se criaram desde o século XV ainda sei pouco. Agora abundam as Romney Marsh e Suffolk, introduzidas (dizem os criadores) com apoio do Estado em detrimento das raças autóctones (?!), entretanto desaparecidas (?!). Mas mesmo a lã longa e suave das Romney acaba muitas vezes no lixo, aqui como no Faial e por todo o arquipélago, nos locais em que as ovelhas ainda não deram de vez lugar às omnipresentes vacas.
Em Santa Maria fia-se como no Pico, em fusos leves de tipo 1 que se apoiavam no chão (tosquiava-se e fiava-se sentado no chão) e se pousam agora numa cadeira. Neste pequeno vídeo podem ver-se as operações de cardar, fiar e torcer, num dia em que a névoa açoreana se mostrava em todo o seu esplendor:

nós por lá

santa maria

santa maria
Fotografias de Pepe Brix

Na véspera da partida para Santa Maria publiquei aqui uma fotografia antiga da ilha que encontrara há tempos num site de venda de postais antigos (entre pastas no computador e sites vários de bookmarks, também vou juntando no pinterest imagens de gente a fiar em Portugal). Só ao regressar reparei que o nome por baixo da imagem era o mesmo do Pepe que conhecemos por lá e que nos acompanhou num dia de gravações para a MPAGDP. Não é só uma coincidência, são três gerações de uma família muito especial dedicadas à fotografia.

sol baixo

Retidos um dia a mais nas ilhas pela greve na Sata, passámo-lo sob a chuva de São Miguel, entre muitas violas da terra e mais um museu cuja colecção etnográfica está escondida até data incerta (mas vi finalmente ao vivo Os Emigrantes e os seus lindos taleigos). Aterrámos pela meia noite, o grande velo de que vou falar depois chegou são e salvo e às dez da manhã deste dia da Liberdade já estava na Retrosaria e ensinar mates e aumentos. De tarde lavei um monte de lã merino alentejana com um novo método: escaldei-a como deve ser no tacho gigante que uso para a tinturaria e depois enxaguei no programa das lãs da máquina (sucesso!). Ainda fiei e torci uma pequena meada para ver se os meus fusos da Beira Alta se entendiam com a macieza encarrapetada do merino e para me preparar para ir até à Ovibeja no Sábado mostrar um pouco do caminho que vai das ovelhas aos novelos.

a boina do corvo

boina do corvo

É uma das minhas páginas preferidas do livro. Uma fotografia dos inícios do século XX, desencantada nos arquivos do New Bedford Whaling Museum, de um Corvino. Na cabeça leva a boina do Corvo, uma das pérolas das malhas açorianas cujas origens se perdem no tempo e resistem quase que por milagre até aos nossos dias. Em 1924 Leite de Vasconcelos deu por elas e trouxe para o Continente uma que espero poder um dia ver ao vivo (o retrato que lhe tiraram ao lado dos homens do Corvo e suas boinas está umas páginas mais à frente). No último capítulo está a receita.
Gonçalo Tocha, o realizador de É na Terra não é na Lua, pôs a boina nas capas dos jornais. Adoptou a versão com pala (que ainda não experimentei fazer) e até publicou sobre ela o vídeo que partilho aqui em baixo.
Mais recentemente, a marca portuense de roupa La Paz (que merece um post só para ela) fez da boina peça chave da sua colecção de Inverno. E criou uma nova, por ela inspirada, para o próximo ano.
Finalmente, quem quiser comprar uma boina do Corvo mesmo feita no Corvo (mas em poliéster) pode ir directamente à fonte.

This is one of my favorite pages in the book. A portrait of a young man from Corvo Island dating from the beginning of the 20th century, found in the archives of the New Bedford Whaling Museum. He is wearing the traditional knitted beret from Corvo, which local men have worn since at least the 19th century (the Ravelry page for the pattern is here). The making of one of these berets is the main narrative element in the documentary É na Terra não é na Lua by Gonçalo Tocha. And last year the portuguese fashion label La Paz made it part of their beautiful winter collection. Read more →

lã dos açores

ovelha

lã do faial

A lã é assim, parte dela ou vai para o lixo, ou largá-la ao lume, ou assim, que isto aqui na ilha não tem consumo nenhum, está a ver? (…) Eu não vejo utilidade nenhuma nisto… Antigamente parece que fiavam isto para fazer meias, fazer sueras, para fazer isto, para fazer aquilo, e cheguei a dar a uma senhora (…), ela disse que ia fazer meias disto, não sei se chegou a fazer ou não chegou a fazer… ainda levou uma saca ou duas daquilo, para levar e desfiar e amanhar para poder fazer as coisas…

Este excerto da nossa conversa com o sr. Eduardo de Flamengos (Faial) é semelhante ao que se ouve à grande maioria dos pequenos produtores de ovelhas do país, seja no continente ou nos Açores. Tem-se ovelhas para comer um borrego de vez em quando, ou para adubar a terra, ou para fazer companhia, ou para receber os subsídios da Comunidade Europeia, mas não pela lã que produzem, que essa não só não tem aproveitamento como dá trabalho por ter de ser tosquiada pelo menos uma vez por ano. No entanto a lã das ovelhas do Faial e do Pico é macia e limpa, por os animais serem em geral criados em pastos cobertos de erva fresca, e longa, frisada e muito fina, as melhores características que pode ter para ser fiada facilmente e vestida junto à pele. Falta quem dê por isso e ponha novamente a trabalhar os fiandeiros (rodas de fiar) e fusos esquecidos de casa da avó.

O tempo que tivemos não chegou para perceber que raças autóctones existem (se existem ainda) nos Açores, até porque as que se vão vendo nos pastos são diferentes umas das outras (a da fotografia de cima parece uma romney marsh), e porque os criadores com quem falámos, por não as criarem para vender, desconheciam a raça das suas próprias ovelhas. Ainda assim, fiquei a saber que os rebanhos andavam até há poucas gerações soltos nos baldios das terras altas, e que em Setembro as comunidades se juntavam para fazer a apanha e tosquia dos animais, num dia que era também de festa e por isso certamente encerrado com balhos de chamarritas noite dentro. Read more →

fiar na ilha do Pico

fiar na ilha do Pico

Já não é fácil encontrar teares na ilha do Pico. Na escola de artesanato de Santo Amaro o último foi desmantelado há já vários anos e pouco mais se faz hoje em dia senão peças decorativas em escama de peixe e miolo de figueira. Também deixou de se fiar: as meias de lã para os ranchos folclóricos (que as usam com as tradicionais albarcas) vêm em geral de outras ilhas e a suera (da sweater norte-americana, a camisola de lã usada pelos pescadores) é só peça de museu. Em São João, no sul da ilha, encontrámos a D. Avelina e o seu fuso. Aqui fia(va)-se com o fuso apoiado, técnica que nunca vi usar no continente mas é comum por exemplo no Tibete e no Peru. A lã não é lavada antes de ser cardada (sobre a lã dos Açores escreverei depois), nem se usa roca (tal como na Serra de Montemuro). O fuso é semelhante aos que se usam em Trás-os-Montes (de tipo 1 na tabela estabelecida por Benjamim Pereira), mas aqui a roda (volante) tem um diâmetro maior e é mais fina. O fuso da D. Avelina tinha ainda a particularidade de ter incisos dois sulcos helicoidais, um para fiar e outro para torcer o fio (outro vídeo que fica para depois).

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