fiar na roda

No início do ano passei mais de um mês de roda de um artigo que fui convidada a escrever. As viagens pelas ilhas e pelos livros resultaram em mais de vinte páginas que verão a luz do dia lá mais para a frente este ano. Não tenho muita facilidade em pôr ideias no papel. Adio o mais possível, desculpo-me com uma leitura por fazer, uma ideia por confirmar, prometo a mim mesma começar amanhã. Acabei por ter de pôr tudo o resto de lado e dedicar-me só à escrita, os dias que fosse preciso, sem interrupções até estar feito. Esta semana fiz a última revisão à bibliografia e juntei as imagens e agora resta-me esperar. Entretanto várias horas de recolhas guardadas em discos esperam também que as edite e partilhe, porque são muito mais do que um complemento ao texto. Este vídeo que publiquei hoje (já com quase quatro anos de atraso) é uma verdadeira aula de fiação na roda de tipo 1. Deixei-o assim longo de propósito, para que se vejam e revejam os vários momentos do processo: o estirar e torcer das fibras e o enrolamento no fuso, a correcção das irregularidades do fio, o pegar de uma pasta com a seguinte, o pôr do fio na roda quando ele se solta. Toda uma coreografia que se repete imutável há pelo menos oitocentos anos.

a barreta de são miguel


Mais de meio ano depois, eis que a versão final das instruções do meu gorro de São Miguel fica pronta. Comecei por desenhá-lo para o meu fio João, mas as beta testers acharam que o gorro resultava demasiado grande (aqui em casa somos todos cabeçudos, parece-me). Quatro gorros depois, sempre com pequenos ajustes, optei pelo Soft Donegal, por um cós em canelado liso e por menos uma fila de motivos. Tal como nas barretas antigas (cf. Malhas Portuguesas), o gorro começa com a cor mais clara (tradicionalmente o branco natural) mas depois a cor predominante é a mais escura, o que é um pormenor interessante e pouco frequente.


A barreta antiga tem a forma cónica comum a muitos barretes de malha tradicionais de vários pontos da Europa. Prática para guardar o tabaco e umas moedas, hoje em dia só o Pai Natal, os campinos e os forcados é que continuam a apreciá-la, pelo que a minha versão tem o comprimento habitual dos gorros contemporâneos. Perde-se em superfície para brincar com os motivos mas fica mais visível o padrão do topo da barreta, que é para mim um dos aspectos mais bonitos da peça. O pompom no topo (borla no original) é facultativo.


Daqui a uns meses estarei a escrever com mais profundidade sobre este e outros motivos das malhas tradicionais dos Açores. Imagino sempre que São Miguel podia ter sido a nossa Fair Isle…

As instruções do Gorro de São Miguel (aka #miguelhatpattern) estão disponíveis em Português e em Inglês através do Ravelry.

#lãdosaçores

fiar

Uma semana em viagem para continuar um trabalho em curso sobre a lã nos Açores. Foi também o momento para ressuscitar o projecto Lã em Tempo Real, ao qual devo muitos gigabytes de gravações por todo o país ainda por editar.
Em São Jorge as rodas de tipo 2 (cf. Normas de Inventário da Tecnologia Têxtil) entraram (ou vulgarizaram-se) dos inícios do século XX e substituíram as que antes se usavam, de tipo 1 como em São Miguel. Chamam-lhes invariavelmente engenhos e já não há muitos a trabalhar, que a lã na ilha do Dragão, apesar das afamadas colchas, é coisa quase esquecida. Ela está lá, no entanto, no dorso das ovelhas tosquiadas só porque tem mesmo de ser, e é enterrada ou queimada todos os anos que os bichos são só para o petisco. Tantas contradições nesta ilha linda.

ovelhas
engenho
fios
37

Cooperativa de Artesanato Senhora da Encarnação, Ribeira do Nabo, Ilha de São Jorge, Açores.

fiar nos açores

spinning wool

Na Lomba da Maia, em São Miguel, fia-se a lã na roda, mas a roda é aquilo a que no continente chamamos geralmente caneleiro (ou rodilheiro se estivermos em terras de Miranda) e que na maioria das vezes não é usado senão para encher as canelas para o tear. Tecnicamente um caneleiro desta tipologia (há outras) é uma roda de fiar de tipo 1 em ponto pequeno – o mecanismo é exactamente o mesmo mas para o operar há que estar sentado numa cadeira baixa. Fiar numa roda assim tão pequena acaba por não ser (julgo eu) muito mais produtivo do que fiar no fuso, mas ainda assim remete para uma relativa especialização da actividade. Comparadas com as do Continente, as rodas açorianas têm uma diferença de razão certamente secular: os fusos são integralmente feitos em madeira e não em ferro, o que permite que um bom carpinteiro (e há muitos) possa construí-las do início ao fim. A minha vem a caminho.

Mais rodas de fiar portuguesas.

Panos da Terra: um novo blog, totalmente aconselhado a qualquer pessoa que tenha lido este post até ao fim.

ovelhas daqui

sheep

Nos inícios dos século XX, de todas as ilhas dos Açores era em São Miguel que havia mais ovelhas. Actualmente são tão poucas que só se encontram com esforço. A sua criação não constitui uma actividade económica, a sua carne desapareceu das ementas e memórias e a sua lã acaba frequentemente no lixo. Aqui não há rebanhos: as ovelhas existem sobretudo porque ajudam no maneio dos terrenos comendo plantas que as vacas, por serem mais selectivas, deixam para trás. Umas e outras, diga-se, acabam o dia a ruminar a dieta de pasto cheio de fertilizantes complementada com rações importadas de milho transgénico, que esse é um retrato das ilhas ao qual é cada vez mais difícil fechar os olhos…

fiar em santa maria

spinning in Santa Maria

carding and plying in Santa Maria

Dom Afomso etc. A quantos esta carta virem fazemos saber, q o Ifante Dom Henrique meu muito prezado e amado tio nos enviou dizer q ell mandara lançar ovelhas nas sete ilhas dos Açores, e q se nos aprouvese que as madaria pobrar. (…)
Carta régia de D. Afonso V dando licença ao Infante D. Henrique para povoar as sete ilhas dos Açores. 1449 (fonte).

Flashback de Abril: uma tarde passada na freguesia de Santo Espírito, na ilha de Santa Maria, com um grupo de mulheres de cuja vida a lã fez parte durante muitos anos e que mantem bem vivos os gestos do seu trabalho (até aos meados dos anos 70 a produção caseira de camisolas de lã fiada à mão era um complemento importante do orçamento de muitas famílias marienses). Das ovelhas que por lá se criaram desde o século XV ainda sei pouco. Agora abundam as Romney Marsh e Suffolk, introduzidas (dizem os criadores) com apoio do Estado em detrimento das raças autóctones (?!), entretanto desaparecidas (?!). Mas mesmo a lã longa e suave das Romney acaba muitas vezes no lixo, aqui como no Faial e por todo o arquipélago, nos locais em que as ovelhas ainda não deram de vez lugar às omnipresentes vacas.
Em Santa Maria fia-se como no Pico, em fusos leves de tipo 1 que se apoiavam no chão (tosquiava-se e fiava-se sentado no chão) e se pousam agora numa cadeira. Neste pequeno vídeo podem ver-se as operações de cardar, fiar e torcer, num dia em que a névoa açoreana se mostrava em todo o seu esplendor:

nós por lá

santa maria

santa maria
Fotografias de Pepe Brix

Na véspera da partida para Santa Maria publiquei aqui uma fotografia antiga da ilha que encontrara há tempos num site de venda de postais antigos (entre pastas no computador e sites vários de bookmarks, também vou juntando no pinterest imagens de gente a fiar em Portugal). Só ao regressar reparei que o nome por baixo da imagem era o mesmo do Pepe que conhecemos por lá e que nos acompanhou num dia de gravações para a MPAGDP. Não é só uma coincidência, são três gerações de uma família muito especial dedicadas à fotografia.

sol baixo

Retidos um dia a mais nas ilhas pela greve na Sata, passámo-lo sob a chuva de São Miguel, entre muitas violas da terra e mais um museu cuja colecção etnográfica está escondida até data incerta (mas vi finalmente ao vivo Os Emigrantes e os seus lindos taleigos). Aterrámos pela meia noite, o grande velo de que vou falar depois chegou são e salvo e às dez da manhã deste dia da Liberdade já estava na Retrosaria e ensinar mates e aumentos. De tarde lavei um monte de lã merino alentejana com um novo método: escaldei-a como deve ser no tacho gigante que uso para a tinturaria e depois enxaguei no programa das lãs da máquina (sucesso!). Ainda fiei e torci uma pequena meada para ver se os meus fusos da Beira Alta se entendiam com a macieza encarrapetada do merino e para me preparar para ir até à Ovibeja no Sábado mostrar um pouco do caminho que vai das ovelhas aos novelos.

a boina do corvo

boina do corvo

É uma das minhas páginas preferidas do livro. Uma fotografia dos inícios do século XX, desencantada nos arquivos do New Bedford Whaling Museum, de um Corvino. Na cabeça leva a boina do Corvo, uma das pérolas das malhas açorianas cujas origens se perdem no tempo e resistem quase que por milagre até aos nossos dias. Em 1924 Leite de Vasconcelos deu por elas e trouxe para o Continente uma que espero poder um dia ver ao vivo (o retrato que lhe tiraram ao lado dos homens do Corvo e suas boinas está umas páginas mais à frente). No último capítulo está a receita.
Gonçalo Tocha, o realizador de É na Terra não é na Lua, pôs a boina nas capas dos jornais. Adoptou a versão com pala (que ainda não experimentei fazer) e até publicou sobre ela o vídeo que partilho aqui em baixo.
Mais recentemente, a marca portuense de roupa La Paz (que merece um post só para ela) fez da boina peça chave da sua colecção de Inverno. E criou uma nova, por ela inspirada, para o próximo ano.
Finalmente, quem quiser comprar uma boina do Corvo mesmo feita no Corvo (mas em poliéster) pode ir directamente à fonte.

This is one of my favorite pages in the book. A portrait of a young man from Corvo Island dating from the beginning of the 20th century, found in the archives of the New Bedford Whaling Museum. He is wearing the traditional knitted beret from Corvo, which local men have worn since at least the 19th century (the Ravelry page for the pattern is here). The making of one of these berets is the main narrative element in the documentary É na Terra não é na Lua by Gonçalo Tocha. And last year the portuguese fashion label La Paz made it part of their beautiful winter collection. Read more →

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