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Rua da Rosa, por m0rph3u

por aqui escrevi muitas vezes sobre o meu bairro. Lamechas, indignada e desiludida, mas também apaixonada ou sem palavras, o tom vai variando. O que tento sempre é não resvalar demasiado para o disparate. Diferente atitude teve Laurinda Alves que, no Público de ontem e no seu blog assina este texto sobre a Rua da Rosa. Para quem não saiba, a Rua da Rosa é a maior rua do Bairro Alto e simultaneamente a única que o atravessa de uma ponta à outra em que os carros circulam livremente. Por essa razão tem imenso trânsito, muitíssima poluição e passeios mais estreitos que um carrinho de bebé (não foi à toa que me tornei tão adepta dos slings). Por ter tanto trânsito, é naturalmente uma rua menos apetecível a quem vem passear do que as suas paralelas, mais esconsas mas muito mais sossegadas. Na Rua da Rosa as lojas abrem esperançosas mas fecham geralmente passados poucos meses, porque os turistas que a descem são quase todos excursionistas encarreirados directamente do autocarro (que ficou a esfumaçar no Largo da Misericórdia ou no Príncipe Real) para a casa de fados, e umas horas depois desta outra vez para aquele. Ora uma das automobilistas da via rápida da Rosa, que atravessa não uma nem duas mas três vezes por dia o Bairro Alto por este caminho, é Laurinda Alves: Subo-a de manhã, à tarde e à noite, que ela só tem um sentido e é quase toda a subir. De dentro do seu habitáculo climatizado, Laurinda Alves perde muito do que a rua é e engana~se em boa parte do que diz sobre ela. A rua não tem só um sentido. Quem não anda só de carro sabe bem que a rua também desce e que desce direitinha em direcção ao rio, o que lhe dá a algumas horas do dia uma luz especial de usufruto exclusivo dos peões.


Para que não fique enganado quem leu o texto, convém corrigir mais umas coisas: a primeira esquina, para quem sobe a rua, não tem (nem sequer por perto) nenhuma loja de electrodomésticos, tem uma padaria. O pormenor não é de somenos porque é uma padaria com fabrico próprio e óptimo, padeiras à antiga e que de manhã envolve os quarteirões em volta no cheiro de pão saído do forno. Entre a primeira e a segunda esquina havia há muitos anos uma figueira que também perfumava maravilhosamente a rua e agora há um prédio moderno que alberga algumas das lojas que não chegam a medrar. Na esquina a seguir nunca vi a carrinha da Coca-Cola, mas há um café recente com pinta e boa frequência. No terceiro cruzamento… bem, no terceiro cruzamento há o Casa Nostra e havia até muito recentemente este verdadeiro ex-libris, mas o terceiro cruzamento de que LA fala corresponde pelas minhas contas ao sexto, onde há não a casa de uma senhora muito velha mas uma instituição onde residem ou estão internadas muitas pessoas idosas que entram e saem, umas pelo seu pé outras não, a várias horas do dia. A seguir há de facto uma mercearia (são pelo menos seis mercearias pela rua fora), e a poesia nos gestos de quem compra fruta é de interpretação livre. Já a distinção entre homens (de camisa aberta) e senhores (de calça bege e blazer azul escuro) me dá algum desconforto, mas enfim. Tudo isto para concluir (eu), que a Rua da Rosa não é uma espécie de laboratório social urbano a analisar ao abrigo dos germes, pregões e odores dos autóctones (faltou-me falar por exemplo dos da fábrica de bolos e das esquinas a tresandar a urina) mas antes uma rua que se quer mais rua e menos estrada, e que daqui convido a Laurinda Alves a fazer a pé, para que a conheça, de facto, um bocadinho.

Quanto às imagens que ilustram este post e o artigo de LA: a daqui é da autoria de Pedro Reis e ilustra uma das vistas da Rua da Rosa que nenhum automobilista pode ter. A do Público, como que a coroar o artigo, não é da Rua da Rosa mas da sua paralela Rua do Diário de Notícias. As do blog de LA são da autoria de Jaime Silva e de Jaypeg (apesar de não estarem identificadas como tal).

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