que limpeza

paredes limpas não dizem nada

paredes limpas não dizem nada

paredes limpas não dizem nada

Estou muito ambivalente em relação à  iniciativa camarária de limpar as paredes de algumas ruas do Bairro Alto. À partida, tudo o que ajude a dissociar o Bairro do adjectivo sujo (que deve ser o primeiro a ocorrer a muita gente) parece boa ideia, mas a verdade é que quase tudo neste plano me deixa algumas reticências. Antes de mais, a questão que ocorre a qualquer mãe e mais ainda a qualquer peão (mas nem por isso aos decisionmakers que são em geral homens e automobilistas): não seria mais urgente e menos polémico começar pelo chão? Promete-se vigilância apertada e castigo imediato a quem desenhar na parede, mas jamais se viu semelhante aparato dedicado aos dejectos que tantos donos de cão deixam para trás, na rua, nos jardins e onde calhar, e que transformam qualquer passeio no Bairro numa ameaçadora corrida de obstáculos. A seguir há a questão do mapa desta limpeza: começar pela Rua do Norte, nem de longe a mais suja mas sim a mais turística e onde o comércio não tradicional está de melhor saúde, onde vão comprar roupa e cortar o cabelo se não os produtores, pelo menos muitos consumidores de street art, também é uma opção que só parece óbvia pela visibilidade (lá se foi este magnífico stencil). Não sei o que pensam do assunto os lojistas da rua, mas estou curiosa. Depois resta saber se se deve chamar vandalismo a tudo o que se faz à  parede alheia: a mim chocam-me os cartazes colados selvaticamente e em camadas (apesar dos ocasionais espectáculos gráficos que proporcionam) e aos tags não reconheço interesse (só à s vezes), mas choca-me igualmente ver desaparecer por exemplo os trabalhos do ABOVE. Outros terão necessariamente sensibilidades diferentes. O que me parece óbvio é que esta operação de limpeza está sobretudo (e como dizia alguém num comentário a este post no blog do Museu Efémero) a criar novas instalações para estes artistas/vândalos (riscar o que não interessa) fazerem o que gostam. Eu cá, se fosse um miúdo de hormonas aos saltos e lata de tinta na mão, agora teria ainda mais vontade.

Para pensar:

Paredes más limpias, alquileres más altos

Paredes limpias no dicen nada.

Para discutir:

Limpar o Bairro.

Para brincar:

Coloring book for graffiti artists (via Amnesia).

Comments

12 responses to “que limpeza”

  1. sara bizarro Avatar

    e o que achas de fecharem o bairro à s duas da manhã?

  2. julieta iglésias Avatar

    não sei o que será pior, se o rolo de tinta da câmara se os gatafunhos que escorriam paredes, portas e janelas abaixo.

    a intervenção da câmara não ía ser feita com a participação de um comité de “entendidos no assunto” que indicaria o que era ou não passível de ser apagado e o que se deveria manter?

    a ver vamos o que metros e metros de “novas telas” nos reservam.

  3. Diane Avatar

    O Bairro Alto foi durante muitos anos a minha segunda casa.

    Quando venho à  Lisboa, continua a ser paragem obligatória. Os últimos tempos já não achei muita graça, nomeadamente aos cheiros de certas ruas, aos cartazes, e certos graffitis.

    O que faz o encanto do bairro é a arquitectura das casas e os seus acabamentos para mim são essenciais, como as portas, janelas, caleiras e… fachadas!

    E porque gosto dos graffitis, quero partilhar isto contigo. Conheces Blu Muto?

    http://www.blublu.org/

  4. toni Avatar
    toni

    a mim faz-me imensa confusão a escolha das ruas para “limpar”, a limpeza ficar-se pelo rés do chão e nem contemplar as portas, a redução dos horários dos bares e a promoção das casas de fado como “turismo oficial” do bairro.

    tenho muito medo que seja o fim do renascer do bairro e o inicio de mais um longo ciclo descendente.

  5. Mariana Avatar

    Olá!

    Queria fazer lembrar que os graffitis são invasão de propriedade, porque a parede das casas é propriedade dos donos das casas.

    É chato dizer isto, mas normalmente o que é pintado na propriedade alheia não são graffitis artísticos, são a porcaria dos tags, ou então ditos sem piada nenhuma. Eu por exemplo, fiquei mesmo muito, muito chateada quando há coisa de 2 meses cheguei a casa e vi na parede do meu prédio (pintado recentemente) uns ditos escritos em francês, ainda por cima cheios de erros.

    Adorava que a camara municipal me limpasse a fachada do prédio!

  6. Vanda Avatar

    O problema é que os taggers tb n respeitam street art como a do ABOVE – http://i212.photobucket.com/albums/cc242/fotometria/DSC_0002-1.jpg (foto por Fotometria).

    É preciso começar por algum lado, e acho que não será por isto que vou deixar de reconhecer fotos de Lisboa no Wooster Collective :)

  7. catarina m. Avatar

    Infelizmente é uma questão que nem sempre é abordada em profundidade nas acções de reabilitação arquitectónica e urbana – Distinguir o que são marcas de utilização a manter do que são marcas de degradação a reparar.

  8. Ju Padilha Avatar

    Olá Rosa!!!

    a cidade de São Paulo passou pela mesma limpeza de tintas cinza e branca!! foi apagado um imenso grafitti de OsGêmeos!!! artistas que foram convidados para gravitar a parede do Tate MOdern!!! o que choca é que os encarregados da limpeza, não faziam nem idéia que aquilo não era um rabisco e sim uma obra de arte!!!

    consola saber que a street art se define como uma arte efêmera… sendo assim, sorte de quem pode ver!

    beijo!

  9. inês Avatar

    Eu partilho a tua ambivalência. Também tenho pena que tudo seja limpo sem qualquer critério porque há coisas que mereciam ser preservadas. Mas por outro lado parece-me ser da própria natureza do graffiti a possibilidade de desaparecimento, seja qual for a forma de isso acontecer – porque outra coisa foi pintada por cima, porque foi limpo, porque as paredes foram repintadas. O efémero é isso.

    Quanto ao novo horário, não me choca nada. Vivi anos no bairro alto e apesar de agora estar na sua periferia continuo a senti-lo como meu. E, mesmo gostando de sair à  noite e até tarde se me apetecer, nos últimos tempos em que lá vivi impressionava-me o nível de barulho a que se podia chegar à s 5 e tal da manhã. Porque os bares fecham à s 4 mas ainda fica muita gente a deambular pelas ruas durante muito tempo. E se queremos, e eu quero, que o bairro mantenha a alma que tem e que é feita de gente nova, gente velha, gente que lá vive e outra que lá passa então tem de se ter algum cuidado com quem lá vive e dorme. Caso contrário um dia destes tratar-se-á apenas de um bairro de bares, restaurantes e lojas porque ninguém aguentará lá viver. E isso quanto a mim é o pior que ali poderia acontecer.

  10. arch190 Avatar

    I like graffitis and spontaneous street art very much.

    I hate those horrible tags without sense, just to spray, they are crimes.

  11. Marta Mourão Avatar

    Não sei se discordo completamente com esta medida da câmara de Lisboa, se calhar foi é mal executada. Também acho que os graffitis vão acabar por aparecer logo a seguir, com proibição ou sem.

    Por acaso estive no bairro alto, na sexta-feira à  noite e o que realmente me chocou não foram os graffitis, foi a atitude das pessoas que resolveram participar na “manifestação” contra o encerramento dos bares do bairro à s 2h da manhã. A manifestação consistiu em soprar para um apito incessantemente. Vivemos num país com liberdade de expressão, mas o que eu vi foi para além disso. Tive pena dos moradores do bairro alto naquela noite.

    E saí de lá com dores de cabeça.

  12. José Pinto Avatar
    José Pinto

    Apenas um comentário a este post: só pessoas sem sentido estético, asseio, sem respeito pela história e que não se importam de passear com as filhas no meio de traficantes de droga é que ficam chateadas com a limpeza das paredes do Bairro Alto. Já agora, os grafittis são muito mais graves que o ‘cócó’ de cão… o primeiro demonstra que o bairro é frequentado por delinquentes (e não artistas – a pena atribuida a esta ‘arte’ vai até aos três anos de prisão)…o segundo demonstra que o bairro é frequentado por…cães!

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