aldeia da serra, redondo

aldeia da serra

aldeia da serra

aldeia da serra

Há três anos fui à Aldeia da Serra conhecer as mulheres que mantêm vivas as meias da Serra de Ossa. Foi um daqueles dias que não se esquecem, e um dos mais decisivos para levar avante a ideia de escrever um livro. Hoje, a convite da Câmara de Redondo, vou reencontrá-las e mostrar o que fiz entretanto.

Three years ago I went to Aldeia da Serra, a small village in Alentejo, looking for the few women who still keep a very special tradition alive: they are the makers of the meias da Serra de Ossa, the beautiful bright stockings once worn by the local girls. From that day on I was sure that I had a book to write.

aldeia da serra

gola minderica

gola minderica

gola minderica

A gola minderica, não sendo directamente inspirada numa peça de malha, foi escolhida para o livro por ter nascido do meu fascínio pelas mantas artesanais portuguesas. Neste caso baseei-me nos padrões das mantas de Minde que, apesar de fazerem parte do repertório mental de quase todos os portugueses, poucos associam ao seu local de fabrico. Fazem-nos pensar no Ribatejo ou chamamos-lhes alentejanas, sem saber que vêm de uma terra pequenina, mais a norte, com uma longa história de teares caseiros e comerciantes orgulhosos que as espalharam por todo o sul de Portugal. Os mindericos distiguem bem as suas mantas janotas (as mais coloridas) das do alentejo. As cores não são as mesmas, nem é igual a dispersão dos motivos pela superfície do tecido. Mas um leigo pode facilmente confundir-se. O que é inequívoco é que os padrões de Minde constituem um manancial gráfico que apetece tricotar, respeitando as paletas ou inventando outras. A sua estrutura composta por motivos pequenos, muitos dos quais se repetem sempre ao mesmo ritmo (3, 2, 1, 2), torna o trabalho a duas cores bastante fácil de memorizar e rápido de fazer.

Para encontrar uma manta de Minde verdadeira, das que são feitas em tear manual com fios de lã, é preciso ir ao CAORG e fazer figas para que haja stock, porque elas desaparecem mal saem das mãos do tecelão Elias.

Estas duas golas foram feitas em Beiroa. Uma é a do livro, com a sua bainha de bicos, e a outra foi feita numa paleta mais quente, com o castanho natural por fundo, e com as orlas em canelado (três serões chegaram para a terminar).

This cowl from the book was inspired by the handwoven blankets from Minde. Minde is a small town with a strong tradition in weaving and trading. The blankets were woven at home and then sold by the men, who travelled in the Summer to sell them in the big farmers markets of the south. They feature small and repetitive motifs, which translate perfectly into knitting. And their bold palettes are an endless source of inspiration.

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caneleiras poveiras

caneleiras poveiras

a sara no pico

As caneleiras poveiras do livro foram inspiradas num par de meias que, em 1967, Sebastião Pessanha trouxe da Póvoa de Varzim. Tinha 75 anos e felizmente continuava a reparar em coisas a que não muitos outros deram importância. Descendentes delas, as versões para turista das meias dos pescadores do Norte ainda se encontram por aí. E também há quem saiba fazê-las bonitas. À falta de imagens antigas que mostrem as meias a uso com os motivos à vista, suponho que as estrelas, espinhas e pássaros às cores ficassem escondidos por baixo das calças, alegrando não os olhos mas o coração.

As minhas caneleiras, que têm os motivos bem à vista para que não fiquem esquecidos nas reservas do museu, foram feitas com estas lãs e foram usadas pela Sara, na Ilha do Pico, ao som da Chamarrita.

These legwarmers from my book were inspired by a pair of fisherman socks from the collection of Sebastião Pessanha (b. 1892), a portuguese ethnographer who (unlike many others) paid attention to knitted artifacts and knitting tools throughout his life. Coarse touristic versions of this type of socks are still handmade and sold today, some of them bearing interesting stranded patterns.

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fazer a liga para o cuco

No Ribatejo, no mesmo fim-de-semana em que encontrámos um grande campo de tulipas e um mini tocador de cana rachada, conhecemos a D. Lurdes Santiago, fazedora de meias nascida em Almofala, mesmo junto a Espanha. Entre outras coisas contou-nos como por lá se aprendia a fazer malha nos seus tempos de menina:

Pegavam em duas agulhas e num novelo de linha e davam às crianças para fazer, quando eram pequenitas. E então diziam assim: “vais fazer a liga para o cuco, que senão o cuco tira-te os olhos!”. (…) Compravam logo uma cestinha pequenina (…), metiam as duas agulhas, novelo e as avós ensinavam. Faziam, chamavam elas, a liga: era só a malha de liga por dentro e por fora, às vezes com quatro, cinco malhas, às vezes as malhas eram desta altura, mas faziam. E assim aprendíamos.

Um dos momentos da conversa de que gostei mais foi a descrição do jogo que as raparigas faziam para ver quem fazia malha mais depressa. Vale a pena ouvir.

Two weeks ago we’ve met Mrs. Lurdes Santiago, born in Almofala, a village very close to the spanish border. She told us how in her time little girls were given a small basket to carry on their arm, a ball of cotton yarn and a pair of hooked needles. Their grandmothers would say, half joking: “You’re going to knit a garter for the cuckoo, or the cuckoo will come and take away your eyes”. So they started by knitting a simple garter, purling all stitches (the purl stitch is the first and easiest stitch using the portuguese method).

a boina do corvo

boina do corvo

É uma das minhas páginas preferidas do livro. Uma fotografia dos inícios do século XX, desencantada nos arquivos do New Bedford Whaling Museum, de um Corvino. Na cabeça leva a boina do Corvo, uma das pérolas das malhas açorianas cujas origens se perdem no tempo e resistem quase que por milagre até aos nossos dias. Em 1924 Leite de Vasconcelos deu por elas e trouxe para o Continente uma que espero poder um dia ver ao vivo (o retrato que lhe tiraram ao lado dos homens do Corvo e suas boinas está umas páginas mais à frente). No último capítulo está a receita.
Gonçalo Tocha, o realizador de É na Terra não é na Lua, pôs a boina nas capas dos jornais. Adoptou a versão com pala (que ainda não experimentei fazer) e até publicou sobre ela o vídeo que partilho aqui em baixo.
Mais recentemente, a marca portuense de roupa La Paz (que merece um post só para ela) fez da boina peça chave da sua colecção de Inverno. E criou uma nova, por ela inspirada, para o próximo ano.
Finalmente, quem quiser comprar uma boina do Corvo mesmo feita no Corvo (mas em poliéster) pode ir directamente à fonte.

This is one of my favorite pages in the book. A portrait of a young man from Corvo Island dating from the beginning of the 20th century, found in the archives of the New Bedford Whaling Museum. He is wearing the traditional knitted beret from Corvo, which local men have worn since at least the 19th century (the Ravelry page for the pattern is here). The making of one of these berets is the main narrative element in the documentary É na Terra não é na Lua by Gonçalo Tocha. And last year the portuguese fashion label La Paz made it part of their beautiful winter collection. Read more →

fazer

#knitting

#raglanify in progress #knitting

Já estava prometido a várias pessoas: um workshop para aprender a tricotar camisolas sem costuras. Pareceu-me que a melhor maneira de o fazer seria aplicando a técnica numa peça tão pequenina que pudesse ser terminada em poucas horas. Aposto que vai ser divertido.
Entretanto a camisola da E. avança (tenho uma ajudante).

#knitting

raglanify kureyon

raglanify kureyon

raglanify kureyon

Em 2004 fiz uma camisola para a E. com Kureyon. Ela usou-a muito, depois a irmã e agora é a prima pequenina que anda com ela. Está a ser um Inverno de camisolas – vou na terceira de quatro planeadas. Voltei à Kureyon (diz-se curei-ón, que o nome japonês vem da palavra inglesa crayon), e é mais uma feita com ajuda do Raglanify. Como a E. gosta de usar a outra do avesso, nesta deixei de propósito o avesso do lado de fora. No Ravelry está aqui. Read more →

knitting in the nordic tradition

knitting in the nordic tradition

knitting in the nordic tradition

Uma das prateleiras cá de casa em que os livros já não cabem é a dos de malhas tradicionais de várias partes do mundo. Por aqui têm aparecido alguns, como este ou este, mas nos próximos tempos vou mostrar outros dos meus preferidos. O de hoje acaba de chegar. Comprei-o num impulso, depois de ver esta imagem no Pinterest, e já é um dos meus preferidos. A edição original, dinamarquesa, é de 1981 mas a paginação cuidada, misturando a informação histórica com a componente prática, sobreviveu muito bem à passagem do tempo. Vai ser a minha leitura de hoje. Read more →

fazer meia

fazer malha

fazer malha

Cinco meninas todas iguais
Uma anda nua a despir as mais

As cinco agulhas assustam quem se inicia no tricot. Lembro-me do fascínio que exerciam sobre mim quando morava em Reguengos, onde algumas mulheres ainda faziam meias de linha (que nós calçávamos). Mas trabalhar assim, sempre à roda, sempre em liga, foi na verdade a técnica mais usada em todas as nossas aldeias até há pouco tempo e foi com cinco agulhas que se estrearem na malha, tão cedo que raramente se lembram da idade, todas as mulheres mais velhas com quem tenho falado.
A complexidade aparente desvanece-se mal se percebe que quando se trabalha com cinco agulhas trabalha-se na mesma apenas com duas de cada vez. E se nas primeiras voltas as outras nos atrapalham e parece que vão cair, num instante o trabalho começa a fluir e dizemos de vez adeus às costuras em tudo o que são gorros, golas, mangas e, claro está, meias.

(as fotografias são da Ilustração Portuguesa, dos primeiros anos do século XX. Na de baixo, uma menina pequena e sorridente a fazer meia)