eu emigro

foi preciso viver quase 26 anos em lisboa (tirando quase dois por outras também lusas mas mais sossegadas paragens) e foi preciso viver dois meses no primeiro mundo (sim, em ny, onde milhares de pessoas acabam de morrer num atentado, mas onde o passaporte que perdi algures na east village me veio parar novamente às mãos e onde andei sozinha nos transportes suburbanos às duas da madrugada sem me sentir minimamente insegura), foi preciso voltar e ir calmamente ao cinema numa noite de domigo para ser assaltada pela primeira vez na vida. e não, o pior não foi o assalto nem ficar sem telemóvel. o pior não foi sequer a sub-chefe santana, da esquadra do bairro alto, a dactilografar a uma palavra por minuto a queixa que não consegui ainda apresentar (por causa de um cadáver entretanto aparecido dois quarteirões adiante). é possível acreditar que não há formulários, que não há ‘procedures’, que cada queixa é redigida num documento em branco, em texto corrido, de uma forma totalmente medieval (and believe me, i know what i’m talking about)? é possível acreditar que morreu uma pessoa dentro de um carro enquanto eu e o pedro éramos assaltados, e que uma hora depois a polícia, entre telemóveis e walkie-talkies sem bateria, ainda não sabia o que fazer? e mais: não, a psp não tem site oficial, e a única coisa semelhante que descobri é provavelmente o pior exemplo de lixo electrónico que vi nos últimos tempos e que não, parece que o ministério da admnistração interna (será que existe) também não tem site nenhum?

…ainda nem consigo acreditar

Mesmo tendo visto tudo em directo. As Twin Towers cairam mesmo. O Bruno, o Daniel e o Jorge estão bem, felizmente. mas, e o resto? E a Megumi, a Woo-jung, a Joo-mee, a Kit, a Iku e a Hitomi? E o Joe, a Barbara e a Christine? E o Allan? E o Jordan e o Leroy?

¶ of drawing

which is best, to draw from nature or from the antique? and which is more difficult to do outlines or light and shade?

¶ of variety in the figures

the painter should aim at universality [.]; for a man may be well porportioned, or he mat be fat and short, or tall and thin, or medium. and a painter who takes no account of these varieties always makes his figures on one pattern so that they might all be taken for brothers; and this is a defect that stern reprehension.”

from the notebooks of leonardo da vinci.

#meiasdatiabarborita

aprender

Demorou, mas as instruções para fazer as meias da tia Barborita estão finalmente prontas e disponíveis para download no Ravelry. Escrevê-las foi um processo muito mais interessante do que de vezes anteriores porque implicou aprender uma coisa nova. Há anos que admiro os livros de tricot japoneses e as suas instruções em esquema. Mais claras e intuitivas (para mim) do que as receitas por extenso, há muito que se tornaram a minha forma preferida de ler e escrever tricot. Ao decidir publicar a receita destas meias quis fazê-lo à japonesa, mas faltava-me dominar a ferramenta certa para o fazer. Foi o pretexto para aprender.
As instruções também estão disponíveis em texto (em Português e em Inglês). Por isso, quem quiser aprender a tricotar por esquemas japoneses pode ver estas instruções como uma espécie de pedra da roseta e passar das meias da Tia Barborita para livros como este ou este.

meias da tia barborita
meias da tia barborita

As meias que desenhei nasceram desta, pequenina e rota, feita algures no início dos anos 70. Hoje em dia a Tia Barborita pouco pega nas cinco agulhas e entretém-se sobretudo a fazer (como tantas senhoras de norte a sul do país) biquinhos de renda em panos da loiça. Mas in illo tempore fez, no mesmo ponto, as da fotografia de baixo, que julgo serem as meias mais altas que já vi.

No Instagram: #meiasdatiabarborita

tele-tricot


Uma coisa que estava há anos na minha lista: fazer pequenos vídeos de tricot. Vídeos mesmo muito simples e curtos, como os que eu gosto de ver, sem narração nem introduções, só mesmo com o que interessa. A câmara lenta ajuda a que os gestos se percebam mais facilmente e, a julgar pelo feedback no instagram, foi uma boa ideia fazê-los. Os primeiros já estão no YouTube, porque a web 2.0 só se lembra do que aconteceu há uns minutos atrás e às coisas úteis convém ser fácil voltar. Partilho aqui este em particular porque ilustra uma maneira menos comum de tricotar o ponto de meia. A técnica é actualmente a minha preferida porque, com um pouco de prática, faz com que a tensão das carreiras de meia fique quase idêntica à das carreiras de liga.

malhas portuguesas

malhas portuguesas

malhas portuguesas

Nasceu esta tarde em Lisboa às 14.31h, com 546g de peso. Está de boa saúde, tal como a mãe que, por se encontrar ainda um pouco combalida e muito emocionada com o acontecimento, deixa os comentários para depois.

malhas portuguesas - portuguese knitting

malhas portuguesas

portugal porta-bebés

tecto

capucha

Não tenho conseguido ir mesmo todas as semanas à biblioteca como pretendia, mas sempre que vou regresso contente. Um excerto de um dos artigos que li hoje, escrito por José Júlio César em 1922:

Se precisam de agasalhar ou conduzir ao colo uma criança, deitando-a sobre uma das pontas [da capucha] e passada a outra por baixo desta, levam as mães os filhinhos encostados ao coração, podendo levá-los sopesadas da cabeça e ombros, enfardados e estendidos quase como se estivessem no berço. Desta forma devia ter trazido a Virgem Mãe ao colo, envolto em seu manto, verdadeira capuchinha, o Deus Menino.
É tão cómodo e prático este modo de trazer e acalentar crianças que as mães, ou quem assim as leva, ficam com os movimentos livres para fazerem qualquer serviço, e até para conduzir qualquer coisa à cabeça. pois sabem aconchegar e enrolar os filhos de tal modo que podem fazer largos trajectos sem precisarem do auxílio das mãos e braços para os transportarem.

Esta imagem, que publiquei há algum tempo, ilustra bem o texto.

sobre rodas

Ch. Chusseau-Flaviens, Autriche Vienne, ca. 1900-1919.

Uma das consequências indirectas de o nascimento da A. me ter convertido ao babywearing foi ter passado a questionar a necessidade de usar muitos (senão quase todos) os acessórios que as grávidas e recém-mamãs do mundo ocidental pensam serem essenciais à felicidade dos bebés. Sair à rua com um bebé num sling significa deixar em casa o gigantesco porta-bagagens sobre rodas conhecido como carrinho de bebé. Sem porta-bagagens aprende-se a simplificar e chega-se à conclusão de que quase nada chega perfeitamente.

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams. 1926 (arq. Corbis).

Ao perceber que os carrinhos são só mais um dos acessórios dispensáveis passei a olhar para eles com outros olhos. Popularizados no tempo da rainha Vitória, fazem na sua origem parte de um tipo de maternidade delegada em amas e criadas, com uma enorme distância entre os olhos da mãe e a pele do filho. O século XX democratizou o acesso aos carrinhos e deu-lhes novos feitios e materiais, mas não encurtou essa distância.

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