a transumância ii

américo

miguel

É outro estar, em que o silêncio não cansa, viver de homens em que fomos intrusas. O convívio e a amizade que elegem como valores não traduzem o afecto entre pastores que choraram juntos de medo quando numa noite de trovoada viram os raios estilhaçar os penedos à sua volta, que salvaram por pouco o rebanho de um incêndio ou que partilharam semanas quase isolados no cume da montanha. Estranho e fascinante mundo em que as mulheres parecem o sólido fio de terra, portadoras da bucha, da roupa e dos filhos, mas não das estrelas. Read more →

a transumância I

madrugada

Uma mole de homens e animais subiu a montanha em busca de alimento, como todos os anos há milhares de anos. Ovelhas, cabras, homens, cães, duas mulheres. Do nascer do sol ao meio dia, do ar imagino que parecêssemos um organismo vivo, cor de terra, esticando e engrossando consoante a largura dos caminhos, acordando o povo ao som de quase mil chocalhos… Read more →

i dream in colour

dyeing

dyeing

Não teria coragem de gastar cerejas boas para tingir lã, mas achei que os caroços e pauzinhos das que comemos ao jantar talvez contivessem corante suficiente para dar cor a um bocadinho de lã. Pu-los a cozer em água durante uma hora e a seguir deixei uma amostra de beiroa tricotada de molho na infusão, com um bocadinho de vinagre. A cor resultante é surpreendentemente bonita, e quase igual à da lã sarnubega de Mértola (no novelo). A repetir com todas as cerejas desta temporada. Read more →

aljezur

aljezur

aljezur

Cada vez gosto mais dos pequenos museus locais, onde a prioridade é mostrar. Uns têm muito pouca informação sobre a colecção, noutros as condições de exposição deixariam qualquer técnico de conservação arrepiado, mas em todos há peças para ver, conhecer e relacionar. E para quem visita, venha de longe ou da porta ao lado, vale mais uma dúzia de peças à vista do que centenas delas escondidas nas reservas. Read more →

tricot de dedo

tricot de dedo

tricot de dedo

No dia em que, apesar do calor, a A. quis pavonear o seu casaco novo no recreio, chegou a casa a dizer que a professora de cantina e de sesta a tinha ensinado a fazer tricot. E tinha mesmo: tirou da mochila um colar feito durante o recreio e desde aí fez mais um monte deles, tão concentrada como divertida. O tricot de dedo (instruções em Inglês) é a mesma coisa que o rabo de gato, mas feito sem mais material do que um novelo de fio. Fica óptimo com trapiho ou uma lã grossa, e está provado que de tão simples pode ser feito por uma criança de quatro anos. Read more →

#meiasdatiabarborita

aprender

Demorou, mas as instruções para fazer as meias da tia Barborita estão finalmente prontas e disponíveis para download no Ravelry. Escrevê-las foi um processo muito mais interessante do que de vezes anteriores porque implicou aprender uma coisa nova. Há anos que admiro os livros de tricot japoneses e as suas instruções em esquema. Mais claras e intuitivas (para mim) do que as receitas por extenso, há muito que se tornaram a minha forma preferida de ler e escrever tricot. Ao decidir publicar a receita destas meias quis fazê-lo à japonesa, mas faltava-me dominar a ferramenta certa para o fazer. Foi o pretexto para aprender.
As instruções também estão disponíveis em texto (em Português e em Inglês). Por isso, quem quiser aprender a tricotar por esquemas japoneses pode ver estas instruções como uma espécie de pedra da roseta e passar das meias da Tia Barborita para livros como este ou este.

meias da tia barborita
meias da tia barborita

As meias que desenhei nasceram desta, pequenina e rota, feita algures no início dos anos 70. Hoje em dia a Tia Barborita pouco pega nas cinco agulhas e entretém-se sobretudo a fazer (como tantas senhoras de norte a sul do país) biquinhos de renda em panos da loiça. Mas in illo tempore fez, no mesmo ponto, as da fotografia de baixo, que julgo serem as meias mais altas que já vi.

No Instagram: #meiasdatiabarborita

tele-tricot


Uma coisa que estava há anos na minha lista: fazer pequenos vídeos de tricot. Vídeos mesmo muito simples e curtos, como os que eu gosto de ver, sem narração nem introduções, só mesmo com o que interessa. A câmara lenta ajuda a que os gestos se percebam mais facilmente e, a julgar pelo feedback no instagram, foi uma boa ideia fazê-los. Os primeiros já estão no YouTube, porque a web 2.0 só se lembra do que aconteceu há uns minutos atrás e às coisas úteis convém ser fácil voltar. Partilho aqui este em particular porque ilustra uma maneira menos comum de tricotar o ponto de meia. A técnica é actualmente a minha preferida porque, com um pouco de prática, faz com que a tensão das carreiras de meia fique quase idêntica à das carreiras de liga.

malhas portuguesas

malhas portuguesas

malhas portuguesas

Nasceu esta tarde em Lisboa às 14.31h, com 546g de peso. Está de boa saúde, tal como a mãe que, por se encontrar ainda um pouco combalida e muito emocionada com o acontecimento, deixa os comentários para depois.

malhas portuguesas - portuguese knitting

malhas portuguesas

portugal porta-bebés

tecto

capucha

Não tenho conseguido ir mesmo todas as semanas à biblioteca como pretendia, mas sempre que vou regresso contente. Um excerto de um dos artigos que li hoje, escrito por José Júlio César em 1922:

Se precisam de agasalhar ou conduzir ao colo uma criança, deitando-a sobre uma das pontas [da capucha] e passada a outra por baixo desta, levam as mães os filhinhos encostados ao coração, podendo levá-los sopesadas da cabeça e ombros, enfardados e estendidos quase como se estivessem no berço. Desta forma devia ter trazido a Virgem Mãe ao colo, envolto em seu manto, verdadeira capuchinha, o Deus Menino.
É tão cómodo e prático este modo de trazer e acalentar crianças que as mães, ou quem assim as leva, ficam com os movimentos livres para fazerem qualquer serviço, e até para conduzir qualquer coisa à cabeça. pois sabem aconchegar e enrolar os filhos de tal modo que podem fazer largos trajectos sem precisarem do auxílio das mãos e braços para os transportarem.

Esta imagem, que publiquei há algum tempo, ilustra bem o texto.

sobre rodas

Ch. Chusseau-Flaviens, Autriche Vienne, ca. 1900-1919.

Uma das consequências indirectas de o nascimento da A. me ter convertido ao babywearing foi ter passado a questionar a necessidade de usar muitos (senão quase todos) os acessórios que as grávidas e recém-mamãs do mundo ocidental pensam serem essenciais à felicidade dos bebés. Sair à rua com um bebé num sling significa deixar em casa o gigantesco porta-bagagens sobre rodas conhecido como carrinho de bebé. Sem porta-bagagens aprende-se a simplificar e chega-se à conclusão de que quase nada chega perfeitamente.

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams

Trainee nannies at a Nursery Training Centre push prams. 1926 (arq. Corbis).

Ao perceber que os carrinhos são só mais um dos acessórios dispensáveis passei a olhar para eles com outros olhos. Popularizados no tempo da rainha Vitória, fazem na sua origem parte de um tipo de maternidade delegada em amas e criadas, com uma enorme distância entre os olhos da mãe e a pele do filho. O século XX democratizou o acesso aos carrinhos e deu-lhes novos feitios e materiais, mas não encurtou essa distância.

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