wip friday

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Quando a E. nasceu pensei durante quase seis meses que podia tornar-me dona de casa, mas agora atribuo tal desvario ao poder das hormonas do puerpério. Em vez disso dei comigo a trabalhar em casa, um dois em um com alguns contras (a que horas se sai do trabalho?) mas incomparavelmente mais prós, dos quais o principal foi sem dúvida o de adiar a ida para o infantário o tempo que achámos certo (dois anos e meio) para ela e para nós. Filha e neta de trabalhadoras licenciadas, levada ao colo para encontros de feministas no pós-25 de Abril, toda a conversa sobre a chamada new domesticity me cheira sempre um bocadinho a esturro (ou a Brise), apesar de ser inegável que faço mais ou menos directamente parte da coisa. Às vezes apetece-me deixar claro que não tenho a mínima sensibilidade para a decoração nem especial jeito para os bolos, que por aqui as prateleiras têm mais ensaio que ficção e bibelots nenhuns e que quase todas as tarefas domésticas não relacionadas com a maternidade me são mais do que penosas.

E o que eu vinha aqui escrever era só que estou a aproveitar os últimos dias para deixar satisfeitas as várias lojas que me fizeram encomendas, que no Brasil vou ter bonecos à venda muito em breve através do Folha Estúdio, que a Work&Shop já inaugurou oficialmente (com direito a reportagem na televisão e tudo) e que em Vila do Conde há postais meus na DesignComTexto.

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  1. Fora todos os “ismos” feministas ou quaiquer outras “amarras”, a verdade é que pode ser fácil dizer (da boca para fora) que “ahh, adorava ficar em casa, trabalhar em casa, poder tomar conta dos filhos e fazer bolos deliciosos…” É tudo resultado da pouca qualidade de vida e pouco tempo de qualidade que temos no quotidiano. Parece-me que o que realmente seria desejável, seriam mais umas horas diárias para dedicarmos à família, aos filhos, aos namorados, ou a nós mesmas! Não há nada de feminismo ou anti-feminismo nisto, apenas vontade de viver.

    Não sou mãe, e ainda não vivo na “minha casa”, mas sei que às vezes nos apetece “nidificar”, como tu dizes. É só aquele brio em sermos nós a fazer, um gosto pelo aconchego e pelo “povoar” a nossa casa de nós mesmos.

    Até ao Brasil, é fantástico Rosa! Sempre de parabéns! Aqui sonha-se com um “beco” de olhos em flor… talvez no Natal? Qui ça!?

    Beijinho grande!

    sara aires

  2. Nem novas domésticas nem feministas!

    A liberdade escapa-nos sempre entre as mãos…O crime passou de ser mãe trabalhadora, para ser “doméstica”.

    Admiro todas as mães que têm coragem para fazer aquilo que gostam: seja trabalhar fora de casa, tomar conta dos filhos e da casa, ou multiplicar-se entre tudo…

    Queremos liberdade ou novos preconceitos?

  3. Acima de tudo, o que temos no pós pós-25 de Abril é, cada vez mais, a possibilidade de escolher. Até porque com ordenados de 150 contos parece-me um pouco um contra-senso pagar 80 de escola, 20 de carrinha e mais 20 de ama, porque a mãe só está em casa a partir das 8 ou 9 da noite (conheço mais do que um caso assim). Porque é que as mulheres acabam por optar, nestas condições, por mesmo assim ir trabalhar? Por causa do preconceito que há de se ficar em casa ser equivalente a abdicar da liberdade feminin(ist)a.

    E, having said that, só nós sabemos como por vezes custa escolher ficar em casa… mas nos prós e contras constantes que são a vida, os prós são sempre muito mais pesados. E se pudermos, como tu, Rosa, ficar a trabalhar, em casa, ainda mais pesados se tornam.

    Parabéns!!! (incluindo por mostrares a tanta gente que é possível!)

    Um beijinho enorme

    Marta

  4. Parabéns pelo Brasil! :D

    e por conseguires gerir o teu trabalho em casa!

    apesar de ter agora (também) uma actividade que me ocupa algumas horas fora de casa, como freelancer tenho essa experiência e sei que não é fácil (sim, a que horas se sai do trabalho?).

    a maioria dos contras penso que se conseguem resolver com organização, apesar de o trabalho estar sempre ali à espreita (ando com uma certa dificuldade em me decidir quando tenho um tempinho ‘livre’ por pegar nas agulhas ou por ir adiantar só mais aquele trabalhinho…)

    E quando tiver filhos também gostava de ter a possibilidade de continuar a trabalhar desta forma.

    (por acaso até tenho jeito para fazer bolos, mas não passo os dias a fazê-los hehehehehe)

  5. Olá. Fiquei fascinado com o retrato que você fez do Thom Yorke. Será que eu poderia colá-lo no meu blog? Tenho de pagar por ele se fizer isso? Eu poderia indicar o link, tenho certeza que muita gente iria entrar aqui pra ver… O que acha? Posso?

  6. Adorei o texto e os comentários. Concordo com todos eles. Minha experiência com a maternidade tem me revelado que as angústias apenas se minimizam…

    Um tapete de flores para enfeitar teus bonecos no Brasil. Sorte nossa!!!

    PS. Sobre a cesárea, passei por ela, por motivos absolutamente alheios a minha vontade, mas aqui ficou tão especializada que não chega a 1 hora de duração entre a “costura” e a limpeza simultânea do bebê.

  7. Esta é uma matéria sensível. A massificação do trabalho das mulheres não se compadece com a liberdade para o exercício pleno da maternidade. Confesso que tenho pensado nas várias maneiras de gerir estas questões e o tempo. Creio que trabalhar em casa e cuidar de um filho ao mesmo tempo não deve ser nada fácil, por outro lado, e ao contrário da tua opinião, estou muito contente por ter o meu benjamim num infantário, ou, naquele infantário. Se trabalhasse em casa ia lá pô-lo na mesma… e tenho a certeza que não faria tantos bolos como faço… (risos)

    Bjs

    *Ps.Quanto ao post anterior, o melhor é ouvir a voz da natureza quando chegar a hora do parto, porque ela sabe o que faz.

    Essa e a da tua obstetra, claro.

    Bjs

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