dos tecidos africanos

wax print

Não se pode contar a história da capulana sem falar de uma técnica em particular de estampagem, por intermédio da qual nasceu o tipo de tecido que mais facilmente identificamos como africano. É a técnica indonésia do batik.

Resumindo bastante, pode-se contar a história assim: em meados do século XIX os holandeses tentam entrar no importante negócio de tecidos em batik da Indonésia (então sua colónia), mas sem grande sucesso. Por razões conjunturais esses tecidos são introduzidos e apreciados na África ocidental (onde os batiks indonésios já eram admirados há muito), levando a uma reorganização dos produtores holandeses no sentido de adaptarem o desenho dos tecidos ao gosto do mercado africano. Também empresas inglesas se dedicam à produção de tecidos em batik, cujo fabrico ainda era semi-manual em meados do século XX e permanece muito mais complexo que a simples estampagem.

Muitos dos padrões introduzidos por estas empresas há mais de cinquenta anos continuam a ser produzidos e imitados por fábricas locais. Nos últimos anos, os produtores têxteis chineses vieram alterar drasticamente o funcionamento do mercado (centrado parece-me que sobretudo entre a Costa do Marfim e os Camarões). Os contornos do fenómeno (bem como o conceito de africanidade destes tecidos que afinal são coloniais) estão muito bem explicados nesta entrevista, que deve ser o texto mais interessante sobre o assunto disponível on-line.

Hoje em dia, grande parte dos tecidos africanos à venda são cópias dos desenhos desenvolvidos pelas empresas holandesas e inglesas ao longo de mais de um século e meio, e impressos em tecidos de má qualidade, muitas vezes já com mistura de fibras sintéticas. Quem sabe, distingue-os pelo tacto e pelo preço mas quem compra on-line arrisca-se a levar facilmente gato por lebre. Nas fotografias tentei mostrar a diferença de textura entre um tecido em batik genuíno (o cor de rosa) e uma imitação, mas não é muito fácil. Fica o conselho para quem quiser comprar tecidos africanos deste género (ou peças produzidas com eles): quanto melhor é o tecido mais difícil é distinguir o direito do avesso, mais bem sobrepostas são as várias cores, mais densa é a trama e maior é a gramagem. A ourela costuma dar indicações sobre a origem (às vezes falsas, mas vale a pena ver). O preço também é um bom indicador: os bons tecidos são mesmo caros, não há volta a dar. Um bom wax aguenta anos sem perder as cores e a textura (mesmo que nos faça companhia todos os dias), e uma imitação está irreconhecível depois de meia dúzia de lavagens. Se se for comprar on-line, escolher só sites que forneçam indicações precisas sobre a qualidade e origem de cada um dos tecidos.


wax print

wax print

22 comments » Write a comment

  1. Imagino o excelente livro que escreverias sobre o assunto…

    Beijinhos,

    Magui

  2. É mesmo! Tantas informações de que nem fazia ideia. É interessante perceber que o que se considera tradicional teve um princípio e que, por vezes, ele pode vir das antípodas; como os enxertos nas plantas ;)

  3. estes tecidos por serem estampados tão artesanalmente debotam nas lavagens?

    já escreveste algum post sobre as origens dos desenhos das estampagens? acho-os sempre muito interessantes, às vezes chama-me mais atenção do que as cores em si.

  4. Olá Vera,

    Não, de maneira nenhuma. O desbotar ou não tem a ver só com a qualidade do tecido e do processo de estampagem, não com a complexidade do desenho. E estes tecidos chineses de que falo não têm nada de artesanal, bem pelo contrário.

    Vou escrever um post sobre o tema dos desenhos muito em breve :)

  5. É uma excelente investigação, bem hajas Rosa. Todas as minhas dúvidas foram esclarecidas e corroboram as informações que tinha a nivel familiar.

  6. Há uns 18 anos o meu marido visitou Moçambique e Africa do Sul de onde troxe unas capelanas, na altura até eram chatos na alfandega, mas pelo menos uma era muito pouco colorida e com uns motivos de peles de animal e foi rapidamente colocada de lado, as outras foram gastas como capas de sofá, aliás bem bonitas e duraram imenso.

    Na altura valorizei pouco os tecidos. Impõe-se uma arrumadela sotão.

  7. Cheguei a aprender a técnica do batik na 8ºano, em educação tecnológica. Adorei. A minha mãe até hoje tem o tecido que pintei emoldurado.:)

    O meu pai trouxe-me um de Luanda no ano passado porque lhe pedi. O que me trouxe tem até um selo com um certificado de autenticidade, o que achei curioso.

    Adoro estes tecidos.

  8. olà Rosa,

    penso ter sido a Rosa com a sua filha que cruzei hoje de manhã na rua, fiquei muito emocionada de a ver assim, tão linda com a sua filha. Também um obrigada pelo trabalho sério que faz sobre os tecidos africanos ( & tudo o resto, os bonecos, os slings, a retrosaria) pois fiquei muito espantada quando vim viver para lisboa de não encontrar muito mais divulgados e com mais facilidade de compra. Para resumir, você é linda e a sua presença fisica revela a beleza do seu trabalho também. Parabéns

  9. Adoro estes tecidos africanos, comprei um numa loja de odeceixes lindo, em tons de rosa e preto, com uns passaros maravilhos. Nunca mais os voltei a encontrar. Agora já sei onde os posso comprar.

    Obrigada

  10. Olá Rosa! Antes de mais quero referenciar que admiro bastante todo o teu trabalho.

    Os bonecos e os slings são tosos lindissimos e de uma grande criatividade. Continua sempre com a tua arte.

    Eu sou uma capulana dependente…lol.

    Tenho dezenas de capulanas , algumas delas já transformadas em roupas e objectos de casa.

    É verdade que muitas são “falsificadas” (Felizmente dessas só tenho umas duas.)

    As estampagems variam imenso de região para região, por exemplo as verdadeiras capulanas moçambicanas são muito alusivas á colonização, com padrões florais que fazem lembrar os xailes do minho.

    São raras as capulanas Moçambicanas de má qualidade. Ma mesmo em Moçambique é mais fácil encontrar má qualidade e a maior parte das vezes mais caras que as verdadeiras.

    Interrssante o teu estudo da Capulana, já que existe pouca bibliografia sobre o assunto.

    1 love

  11. Bom dia,

    Onde se pode comprar tecidos africanos em Portugal Algarve?

    Obrigado,

    Cumprimentos,

    Lalena

  12. Como posso fazer pra comprar esses tecidos? Alguém poderia me ajudar?

    Obrigado

  13. Alo,

    do que aprendi, a melhor e mais correcta maneira de se verificar se um tecido foi estampado e impresso através da técnica batik, é: mais do que o preço alto, um melhor ou pior avesso, é mesmo se o tecido tiver AVESSO. Isto é, estes recidos simplesmente não têm avesso, pois a cera quente , quando está a ser usada para fazer o padrão, cobre, obrigratoriamente, as duas faces do tecido. O tecido, para tal acontecer, geralmente não tem muita trama nem muita textura e a gramagem é pouca e por isso deixa passar a cera para o “avesso” – lá está, as sedas e os algodões fininhos.

    Como isto é uma técnica tão demorada e que exige saber + o aumento da procura destes tecidos = holandeses e chineses e etc, lá arranjaram maneira de enganar turistas e derivados, imprimindo, através de serigrafia (penso eu), os padrões tradicionais africanos, indonesios, etc.

    Estas “falsificações”.

    Isto tudo é perceptível com o tecido na mão, no caso de ser venda online, isso é que já não sei, pois nunca comprei, mas deves conhecer sites de referência e de venda de batiks verdadeiros. Melhor do que tudo, é ir directamente ao fornecedor, aproveitar e ir viajar : ) e nada melhor do que experimentar a técnica e ver com os nosso proprios olhos o que acontece ao tecido e às tintas, durante o processo e no final.

  14. Olá Rosa!

    Cheguei aqui agora e vi que este post é meio antigo, mas tenho muitas dúvidas sobre tecidos africanos, você teria uma fonte, ou alguma indicação de livros, onde eu pudesse buscar mais informações sobre capulanas e outros tipos de tecidos africanos?

    Obrigada :)

  15. Oi, é justamente o contrário: os desenhos dos tecidos africanos não foram copiados dos ingleses e holandes. Estes povos, principalmente os ingleses é que copiaram os motivos dos tecidos africanos ainda na era pré colonial e com o tempo “tomaram” as rotas de comércio deste produto dos africanos. À grosso modo, à titulo de analogia, pode-se dizer que os europeus fizeram o que os chineses fazem hoje: copiam produtos com matérias-primas baratas e vencem a concorrência, ainda que com produtos de pouca qualidade.

  16. Boa tarde,
    Estou à procura de wax em Lisboa. Será que me pode indicar onde comprar?
    Obrigada
    Joana

  17. Pingback: tecidos que falam | A Ervilha Cor de Rosa

Comentar