cobertores de papa

Pastor com cão
António Correia (Foto Hermínios, Guarda), Pastor com cão [1930-1940]. Col. Museu da Guarda. Imagem MatrizPix.

tear

tear

A norte das mantas de Mértola fazem-se, em Maçaínhas, os célebres cobertores de papa. São mantas de lã churra seleccionada e fiada especificamente para este fim, tecidas num enorme tear totalmente manual por um único artesão de 84 anos. Do tear saem para um pisão (já único no seu género e que lembra as pernas de um gigante), daí para a máquina de cardar, onde ganham o característico aspecto peludo que as torna tão quentes, e finalmente para um estendal onde secam e ao sol e são esticados para adquirirem o aspecto definitivo.
Tudo isto se passa na fábrica de José Pires Freire, que tive o privilégio de visitar na melhor das companhias. Fomos recebidas pelas duas únicas operárias num espaço que há algumas décadas ainda albergava oito tecelãos. O único ainda activo já só vem de vez em quando, quando lhe apetece, e quando se reformar definitivamente não tem quem o substitua. Duas aldeias mais para a frente, numa fábrica moderna, fazem-se réplicas industriais destes cobertores, mas não são a mesma coisa. Ficámos também a saber que nesta região tradicionalmente são os homens que tecem, ocupando-se as mulheres de encher as canelas e ajudar com a urdidura. Não resistimos a trazer um cobertor cada uma.

Comprar uma destas mantas (eu trouxe a de riscas amarelas, vermelhas, verdes e castanhas) é a melhor forma de contribuir para que a arte não desapareça. Quem não puder ir a Maçainhas pode encontrá-las nas lojas A Vida Portuguesa de Lisboa e Porto.

tear

caneleiro

cobertores de papa

fábrica de cobertores artur freire

PS: e ainda, a propósito dos comentários que às vezes ouço sobre as lãs que picam:

lauro corado
Lauro Corado (1908-1977), Menino do cobertor. Col. Museu de Grão Vasco. Imagem MatrizPix.

30 comments » Write a comment

  1. São lindas, fico muito contente que ainda sejam feitas.

    Tive uma sensação de dejá vu incrível agora mesmo, lembro-me de ler nalgum lado uma descrição literária de uma cama feita com estes cobertores de papa para um viajante e não me lembro do livro. Socorro, alguém se lembra? Júlio Dinis talvez mas qual livro? Eça menos provavelmente porque penso que me lembraria melhor (a Cidade e nas Serras? acho que não…)

  2. Em casa dos meus avós maternos havia uma com a qual o meu avô se tapava. A mesma tinha a alcunha de “a manta do esparrela” :-) acho que por alusão a uma música qualquer.

  3. Tenho um, às riscas igual ao de imagem, comprei-o há cerca de 15 anos ali para os lados da guarda, pica um bocadinho mas é super quentinho.

  4. é. só pica em casas aquecidas. no pino do frio não pica coisíssima nenhuma, aliás, nada pica!

    Á parte isto, estou cheia de inveja com a visita. Acho que vou perder a cabeça!

  5. Olá,

    Que artigo lindo! Admiro demais a tecelagem assim manual, rudimentar, não industrializada. Tenho um tear, pequeno que foi feito por um senhor aqui de minha cidade (Blumenau, SC – Brasil).

    Acho uma técnica linda, uma arte da paciência. Parabéns aos fortes que mantém essa atividade.

    Abraços
    Kelly

  6. A minha avó também tinha um, às riscas, que ainda mora na casa dos meus pais, a Norte. E é usado todos os Invernos.

  7. Tenho dois ou três na casa de Arganil, mas o que me despertou a atenção foi o tear. Recuei no tempo com alguma emoção e vi-me numa enorme sala do L.Passos Manuel onde havia um tear idêntico a esse da foto. Recordei as minhas peripécias para nele poder trabalhar nem que fosse só uns minutos.Nessa altura, tinhamos acesso a tanta coisa boa:)
    Um excelente f.d.s. para voçês*

  8. Olá Rosa, eu tenho uma sugestão: reparo que a cada passo visitas estas fábricas antigas. E que tal organizar um fim de semana temático a percorrer alguns destes espaços? Eu seria a primeira a inscrever-me!!
    Beijinhos

  9. as mantas são lindas e
    as fotos também, parabéns, dá-me vontade de ir a correr á baixa comprar uma já hoje e enrolar-me nela todo o dia

  10. Parabéns Rosa, mais uma vez pelo teu trabalho etnográfico.

    Acredito que o teu empenho há-de resultar na salvação e ressurgimento de algumas destas artes. Pelo menos não as deixas cair no esquecimento e pelos comentários acima há muitas pessoas com interesse nelas…

    Bjs

  11. I await the report from you about the beautiful blankets of Minde as well Rosa! My grandmother had a furry blanket at the house in the aldeia when we visited. Not from the Beiras but made there abouts in Minho. It was so itchy! I have to bring it home, my home :)

  12. (escrevo num teclado sem acentos, peço desculpa)
    Em casa dos meus avos ha cobertores de papa, que verdade, verdade, picam um bocadinho, mas nada que a dobra do lençol nao resolva…ainda hoje quando la vamos, no Inverno, eles voltam as camas, quem nao os conhece, estranha-os, pesam sobre o corpo chegado a dificultar os movimentos, aquecem por cima do corpo, se nos mexemos parece que ao lado os lençois estao humidos.

    Referencias literarias:
    Miguel Torga – Bichos e outros contos
    Eça de Queiros -Os Maias Cap. III:
    “…e as alusões recatadas, mas inevitáveis, às duas fronhazinhas, ao tamanho dos lençóis, aos cobertores de papa para os conchegos de Janeiro…”

  13. mais uma referencia literaria, e de Julio Dinis- A Morgadinha dos Canaviais.

  14. Lembro-me de ouvir falar desses cobertores em criança e não saber o que eram, nem porque tinham aquele nome, que para mim na altura significava que os cobertores eram feitos de papa (entenda-se das papas que me davam, Maizena ou outras.
    Já me disseram que não os querem porque são muitos pesados…Mas de facto são muitos bonitos

  15. Bela reportagem! Também gosto muito dos cobertores de papa, tenho belíssimas recordações de infância a eles tenho associadas, muitas noites de Inverno a sério, em Chaves, aconchegada em casa dos Avós! Estes cobertores pedem frio à altura :)

  16. Vou já telefonar à minha Mãe, alentejana, para lhe perguntar onde está o cobertor de papa dela.
    Sei que no Inverno passado ofereceu um monte de cobertores a uma instituição onde os utentes passavam frio. Se a ofereceu, pelo menos foi por uma boa causa…

  17. Adorei como sempre.
    Também tenho um desses, mas em branco. A minha sogra era do Porto e viveram em Coimbra onde era muito vulgar.
    Quanto ao picar, pica sim, mas depende da tolerância e do hábito.
    O que para mim quase não pica, para o A. é demasiado.
    Há muitos anos deixou-se de usar a “lã” em deterimento das fibras, que nos fazem transpirar e no meu caso os cabelos em pé com a electricidade.
    Voltar a usar lã tem que ser gradual.
    Mas não há melhor que um cobertor de lã nas pernas, um sofá e um bom livro para uma tarde de inverno :)

  18. Rosa

    Claro que picam! Os meus avós eram de uma aldeia muito perto de Maçainhas, Videmonte. Cada vez que vou de Videmonte à Guarda passo ao pé dessa fábrica. Conheço os cobertores de papa desde que me conheço a mim mesma. Desejo as maiores felicidades a essa empresa e às dos Trinta onde trabalha muita da população de Videmonte. Mas picam, o meu maior pesadelo, em criança, era que a minha avó me pusesse um na cama.

  19. Quando era pequena achava que este cobertor se chamava cobertor de papa por ser tão quentinho tão quentinho que tinha sido inventado para o Papa, que é quase sempre velhinho e os velhinhos têm frio, e é importante o suficiente para se inventar um cobertor de propósito para o aquecer. Engraçado a Catarina ter dito que quando era pequena achava que se chamava assim por ser feito de papa.
    Eu continuo sem saber de onde vem o nome, mas mesmo que soubesse provavelmente ia continuar a gostar mais das origens que lhe inventámos quando eramos pequenos =)

  20. Oh wauw,
    this is a dream.
    I would love to go there to do my internship. Do you have some more information about them ? Do they speak a bit english ? Do you have their adress, and e-mail ?

    You would be a big help !

  21. Deslumbrei-me com as fotos … viajamos e adquirimos conhecimentos através delas
    Eu aqui tão perto e desconhecia esta arte, uma vez que mora na Covilhã. Ora bem, procurei pelas casas de artesanata que proliferam pela cidade e encontrei uma que efectivamente vende cobertores de papa. Rosa, podia ter a gentileza de me dizer por quanto é que o Sr. José Pires Freire vende os ditos cobertores? Desculpe a ousadia, apenas é para verificar se compensa ir a Maçaínhas ou comprá-lo mesmo por aqui.
    Obrigada

  22. Pingback: Lã, neve, cobre e enxofre « XuXudidi et plus encore

  23. Ola,
    sou um fascinado por estes cobertores e pelo facto de serem feitos por apenas uma pessoa. Gostaria de saber, se possivel, a morada da fabrica do Sr. José Pires Freire, porque adorava fazer uma visita.
    Obrigada

  24. Viva os cobertores de papa; são imbatíveis e muito bonitos. Recentemente fui à fábrica dos cobertores de José Freire em Maçaínhas, Guarda e comprei 4 cobertores de papa para me aquecer no Inverno. Só é pena que estejam em extinção e que sejam pequenos para as camas de hoje, mas o tear não dá mais largura.

  25. Pingback: fernão joanes (2) | A Ervilha Cor de Rosa

  26. A Escola de Artes e Ofícios, retomou a fabricação do cobertor de papa e está neste momento transformar a partir do cobertor de papa, fabrico de modelos, boinas, gravatas, carteiras, etç… em cores naturais.. bege e castanha. Venham-nos visitar.
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