retrosaria

retrosaria

O ter o meu nome no meio é uma coincidência auspiciosa naquilo que é o mais diletante dos meus projectos: a minha selecção de tecidos americanos e japoneses, disponíveis a dois dias de correio em vez de ser a um oceano de distância. O site mesmo a sério está a ser feito pela Overture Software e, se tudo correr como planeado, estará on-line em breve mas, até lá, terá uma sede provisória, já operacional. A escala será a que permite uma logística caseira, mas espera-se que quem (como eu) se regala a cortar e coser encontre lá o que precisa. Boa Viagem!

pouco muito

babetes

A lição número um dos cursos de preparação para o parto devia intitular-se A maternidade e o tempo: gerir a frustração. Porque o Tempo (a seguir ao que se entende pré e pós-maternidade por Amor), o que se faz e o que se pode esperar dele, é o que mais muda. E a única maneira de não passar os dias frustrada (para mim) é mudar as expectativas e aprender a fazer (quase quase) tudo às prestações. Com ou sem Natal à porta. Por isso os bonecos continuam a ser feitos devagarinho e estarão aqui e nas lojas quando e se for possível, mas não antes.

(na foto, babetes novos para juntar aos outros)

capuchinha

capuchinha

Enquanto procuro (e vou encontrando!) mais testemunhos de babywearing tradicional português vou coleccionando imagens de personagens para outras histórias, como a desta menina agasalhada numa capucha. Eu também tenho uma assim quentinha, feita pelas Capuchinhas de Campo Benfeito e comprada na Feitoria.

(a fotografia está no livro A Queda da Monarquia. Portugal na viragem do Século de Maria Filomena Mónica, D. Quixote, 1987).

nuvens

Ainda sobre o mesmo assunto: o post de hoje da Jane (e a pressão toda que imagino ter-lhe dado origem) deu-me vontade de ir comprar o livro dela outra vez. Sobre o que escrevi ontem, queria acrescentar (entre muitas outras coisas que se poderia dizer): 1. que se agora somos pós-feministas ou lá o que é que se nos pode chamar, é porque houve feministas propriamente ditas que nos abriram o caminho. Daqui as saúdo. 2. que, ideologias à parte e para ambos os sexos, aprender a coser e a fazer tricot é ou pode ser tão útil e interessante como aprender geografia e a prova dos nove. 3. que da minha história familiar aprendi que ser escolarizada, culta e politicamente activa é compatível com fazer os bordados mais bonitos. 4. que (em resposta à Susana) também acho perversa a competição surda entre as mães (nos jardins e nos blogs), a ver quem faz mais bonito e mais biológico. 5. que a mãe ou o pai que estão em casa com os filhos, a fazer com eles o que os educadores nos infantários fazem com os dos outros, estão (como eles) a trabalhar. E muito.

com ou sem cabeça

071017_si_tu_la_cherche.gif

Encomendei o The Gentle Art of Domesticity, da Jane Brocket só depois de ter lido esta crítica negativa. Nunca tinha sido seduzida por um blog em forma de livro mas, com o conteúdo visual do Yarnstorm, a possibilidade de o poder folhear longe do computador foi razão suficiente. E o livro é mais do que o blog. Não emito opinião sobre a opção de vida da autora, porque me parece ridículo fazê-lo, mas toda esta história da domesticidade não deixa de me incomodar um bocadinho, e confesso que uma introdução de cariz mais crítico ou histórico ou sociológico teria tornado (para mim) o livro ainda mais apetecível. Este post vem a propósito de umas linhas da página 11 em que se diz, sobre as gentle arts (ou ouvrages des dames, lavores ou aquilo que se lhes queira chamar): They have not been taken up by any government department and regulated and repackaged with health and safety messages and warnings. They are a matter of individual and personal choice. Percebo a ideia de afirmar que hoje em dia a prática das ditas gentle arts seja absolutamente livre e voluntária. Aliás, concordo inteiramente com a Jane quando ela afirma que é libertador o facto de não ser preciso skills, qualifications, training or equipment (já tentei explicar a várias pessoas que a criatividade que eventualmente tenha nestes domínios decorre em muito de ter estudado numa área bem diferente). Já a primeira frase fez-me saltar para ir buscar à estante uma pérola da literatura técnica do Estado Novo (ler alguns excertos mais abaixo), de onde se depreende exactamente o contrário, e querer vir aqui lembrar que o exame da quarta-classe das nossas mães incluiu uma prova obrigatória de Lavores Femininos, e que esta mesma disciplina (que os rapazes não frequentavam), as perseguia até no Liceu, gostassem ou não. Foi há muito pouco tempo e não convém esquecer.

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linbransa

fato à lavradeira

Viana do Castelo. Fato à lavradeira.*

Em Viana do Castelo, capital do folclore, as cores vivas dos trajes saltam de quase todas as montras e perde-se a conta às lojas de artesanato (leia-se souvenirs), mas não há uma que recomendasse sem hesitar a um visitante desprevenido. A minha preferida vende, no meio de muitas outras coisas, peças de museu a preços tentadores: saias antigas tecidas em casa, lenços cache-nez que há muito não se fabricam, algibeiras e outras relíquias a cheirar a campo e a bafio. A outra de que gosto este ano estava fechada (acho que só para férias). Nestas e nas outras, o que abunda é industrial e desinteressante. Dou por mim quase com o discurso reaccionário deste livro, onde página após página se lamenta o fim dos serões passados à lareira com as ingénuas e genuínas raparigas do campo a tecer e bordar pacientemente os seus enxovais, e se descreve, já nos anos sessenta, a fraca qualidade do artesanato à venda nas lojas. A atitude não podia ser mais diferente da minha mas, por outro lado, custa-me ver morrer as últimas avós que nasceram num mundo diferente e, com elas, a memória e os saberes desse mundo. Há peças bem recuperadas, mas são a excepção. As poucas tentativas de integrar motivos tradicionais em peças de uso moderno que encontrei pareceram-me feitas com pouco gosto e menos qualidade. E no entanto há tanta coisa que se podia fazer…

PS: Não encontrei esta loja, e parece-me que foi uma pena. Gostava de ter visto de perto as rodilhas e o resto.

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