romeirinha

romeirinha
Catálogo Geral das Novidades para Inverno de 1914 – Armazéns Grandella

Não era bem um xaile. Antes uma pequena capa em malha que cobria as costas e o peito e terminava mais ou menos à altura do cotovelo. Em 1914 o catálogo do Grandella (quem me dera ter um) anunciava-as, feitas à mão em malha de lã, como coisa adequada a uma senhora elegante.

Elvas - Raparigas do Campo
Elvas - Grupo ou Rancho de raparigas do campo
Grupo ou Rancho de raparigas do campo em Elvas. Arquivo Foto Beleza, 1937. Imagens do Espólio Fotográfico Português.

1937, no Alto Alentejo. Curtas, em tricot e em crochet, aconchegam os ombros e o pescoço mas pouco mais, ou não dariam para usar durante as mondas e outros trabalhos do campo. Ficavam a matar com as flores no chapéu, as rendas do avental e os laçarotes das ligas.

Fast forward para o início dos anos 80: agasalho em malha 100% sintética, tricotado no concelho de Ourique para uma criança pequena. Recuperado quase quarenta anos depois e posto a uso para as brincadeiras no quintal, achei graça ao feitio e à construção em carreiras incompletas com borbotos. Resolvi tricotar uma versão em (claro) e perceber se continua a fazer sentido. Parece que sim.

O modelo está disponível no Ravelry.

vergílio correia

Um salto à Torre do Tombo para ver a exposição Vergílio Correia (1888-1944): um olhar fotográfico (patente até 7 de Outubro). O A2 gostou das vacas, bois e cavalos e eu gostei das mesmas coisas de sempre. Ficam alguns acrescentos e correcções às legendas, as mesmas do catálogo da exposição (que infelizmente não está à venda) editado pelo Centro de Estudos Vergílio Correia (queria encontrá-lo online mas aparentemente o Centro não tem site).

vergílio correia

16. Mulher e criança às costas[1]. Argola de ouro maciço[2] e trajo preto, saia e xaile.
Fuso munido de lã e respectiva roca para obra de fiação após cardação[3].
Arquitectura de granito, prestigiante e possivelmente manuelina.
Base de arco sobre capitel de pilastra decorado com meias esferas. Pavimento lajeado.
Beira Alta?[4]

[1] Mulher simulando fiar com bebé preso às costas no xaile, segundo um dos métodos tradicionais portugueses.
[2] As Argolas Carniceiras (que ainda se fazem) são ocas. Se fossem maciças daquele tamanho rasgavam a orelha.
[3] Provavelmente cardada, mas não necessariamente.
[4] Mesmo sem mais informação, arriscaria Trás-os-Montes e não Beira Alta. Do que conheço do babywearing da Beira, os bebés andavam mais ao lado e menos às costas, além de que por lá sempre tenho visto fiar a lã sem roca. Se se visse o cossoiro do fuso era mais fácil saber onde foi tirada a fotografia. A maneira de atar o lenço é uma pista que não fui explorar.

vergílio correia

17. Grupo de mulheres, menina e criança[1]. Saias compridas, menina descalça.
Artefactuário de fiação[2], com proeminente dobadoura[3].
Arquitectura despojada. Cobertura com telha de meia cana.
Paisagem de luz e sombra.
Trás-os-Montes.

[1] Uma das senhoras está a fazer meia, parece.
[2] O artefactuário (neologismo?) é uma roda de fiar, localmente conhecida como torno.
[3] Proeminente roda, deve ser o que o autor queria dizer.

vergílio correia, mulher e linho

18. Mulher sentada. Vendedeira de lã em meadas [1]. Ao fundo, homens e animais.
Feira em meio rural. Muros de pedra solta e cumeada.
Paisagem inóspita.
Beira Alta? Trás-os-montes?

[1] Parece-me que o que a senhora tem ao lado são estrigas de linho, e não lã. E um belíssimo taleigo também.

a bênção do gado

bênção do gado por são mamede
bênção do gado por são mamede
bênção do gado por são mamede

Mesmo ao lado de Lisboa, junto à capela de São Mamede de Janas, uma igrejinha do século XVI-XVII que merece só por si uma visita, celebra-se todos os anos a Bênção do Gado nas Festas de São Mamede. Aqui não há pastores vestidos a rigor e os animais já não são enfeitados, embora persista a tradição das fitas coloridas abençoadas protectoras (usadas pelos respectivos donos ao pescoço). As voltas à capela, assunto sério entre os pastores da Serra da Estrela, aqui são dadas em passeio, de tartaruga ao colo ou cão pela trela, que a festa não é só das ovelhas e cabras.

bênção do gado por são mamede
bênção do gado por são mamede

Cavalos, vacas, galinhas ou coelhos, todos têm direito ao duche de água benta servido acompanhado de um largo sorriso. No pinhal ao lado, os visitantes acampam e piquenicam durante todo o dia, desarrumando-se entre mantas penduradas que protegem do vento ou do sol. Ao lado há farturas, carrinhos de choque, cestos e ferramentas. No ano que vem voltamos de certeza.

bênção do gado por são mamede
bênção do gado por são mamede

bestiário tradicional português

bestiário tradicional português
bestiário tradicional português

Demorei a encomendar este livro, cujo título me conquistou imediatamente. De vez em quando cruzava-me com ele e a causa da hesitação era sempre a mesma: não gosto das ilustrações nem do design e as cores não são as minhas cores. Mesmo com o tema certo, o título certo, as boas críticas. Acabei por comprar e li-o de um fôlego enquanto o pequeno A2 dormia ao meu colo (é um livro infantil, entenda-se). Gostei do texto, do tom, do humor, fiquei com curiosidade pelos livros de aventuras do autor e pelo autor propriamente dito, pensei que cá em casa moram de certeza algumas Jãs enquanto embirrava porque na ilustração uma delas segura mesmo mal a roca e o fuso e a outra nem se percebe o que está a fazer (cf. este outro post e – note to self – fazer um post sobre a Bela Adormecida). É um bom livro. Tivesse o texto sido posto em mãos mais competentes (e – estou sempre a dizer isto – ilustradores de primeira são coisa que não falta em Portugal) e seria daqueles de que comprava uma dúzia para oferecer nas próximas festas de anos.
Imaginei-o ilustrado pela Susa Monteiro. Seria a minha escolha para fazer do Bestiário Tradicional Português um livro inesquecível:

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Ainda sobre livros infantis: a Sara Amado, da Prateleira de Baixo que já vem do tempo dos blogs, teve uma ideia altamente recomendável a toda a gente com crias dos 0 aos 14 (e sobretudo para os tantos de nós que estão a criar os filhos longe de cá): chama-se Pacote.

K=2

K=2
Lembrei-me ontem de uma das minhas páginas preferidas da internet 1.0*, da autoria de João Manuel Mimoso: chama-se Figurado industrial de Barcelos e além de ser a melhor fonte que conheço para conhecer a história do Galo de Barcelos tem uma secção dedicada às faianças kitsch que se produziram na região até aos anos 80 (?). O texto é sério mas muito cómico e desde que o descobri que olho de maneira diferente para esta tipologia de peças (aqui cruzei-me com um indiscutível K=5 com direito a um oh meu deus exclamado de mãos na cabeça).
Na fotografia está um mini cão com bola de futebol que encontrei ontem e trouxe comigo. Pelo Alentejo onde mais ando, 500km a sul de Barcelos, estes bichos ainda povoam aquelas salas de estar que toda a gente da vila tem e onde nunca está.

*muitas vezes penso que a internet é hoje em dia um sítio menos interessante do que era há dez anos, com menos pessoas a pensar e escrever com o objectivo de partilhar conhecimento (a “criação de conteúdos” tornou-se uma profissão), com muito mais conteúdo descartável (as aplicações preferidas dos adolescentes são de conteúdo descartável), etc. Não sou saudosista, mas é um tema que me interessa. Este talvez seja o melhor artigo que já li sobre o assunto: Iran’s blogfather: Facebook, Instagram and Twitter are killing the web.

biquinhos de crochet

biquinhos de crochet
[instagram] #maximalism > beautyfying everyday kitchen towels with crochet edgings is the pastime of choice of uncountable portuguese (older) women, thus keeping their hands busy at times once used for spinning, mending or knitting socks. large bold ‘joyful’ prints and bright yarns are always preferred over lighter ‘minimalistic’ palettes, discarded as too plain or simply ‘sad’.

#àsvezeslánomeumonte

Uma semana a sul. Do meu instagram:

a bata
a bata, principal elemento do traje popular feminino contemporâneo > the smock, worn daily by most women in rural areas of portugal #alentejo

monte
#latergram from #alentejo > having dinner with sr manuel and sra emília who live in an isolated “monte” with their cows, pigs, sheep, goats and poultry. there are no weekends or holidays here, only hard work and the gentlest smiles. #àsvezeslánomeumonte #bringapocketknife #thefatoftheland

comer
#protocol > when invited for a meal at a peasant or shepherd’s home, bring your own pocket knife. you will be expected to use it to help yourself to the communal loaf of bread, cheese, and fruit, and to replace the knife you would expect to see by the plate that might not be there as well (opinel or a swiss army knife will do just fine but go for portuguese ivo or palaçoulo pocket knives if you can). having spent so many years gazing at medieval imagery, even after many memorable meals i am still moved by the longevity of these century old table manners #Portugal #bringapocketknife

volta à terra

Uz
tosquia na Uz
pastor na Uz

Decidi vê-lo por causa da imagem da tosquia, como na véspera tinha ido ver outro por causa dos teares. Gosto de ir para os filmes antes de ler sobre eles. Este apanhou-me de surpresa, apaixonou-me. Nem me lembrava onde era a Uz, mas poucos minutos chegaram para perceber que só podia ser ali onde Trás-os-Montes começam a ser Minho, entre Salto e Bucos, na terra onde as barrosãs ainda são donas dos caminhos. Não é um filme saudosista nem paternalista nem caricatural nem todas as outras coisas que acontecem quase sempre que se tenta falar de outras maneiras de viver. É uma história de amor, um fio de terra.
Volta à Terra, de João Pedro Plácido, no DocLisboa. Volta a passar no sábado, dia 25.

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