a rua

limpa-chaminés

a casa de avental

Muitas vezes tenho vontade de pedir às pessoas com quem me cruzo na rua que me deixem fotografá-las. De manhã, quando regresso a pé da escola da E. e da A., a luz é perfeita e os transeuntes estão no seu melhor. Das raras vezes em que me atrevo as respostas variam. Sins envergonhados, nãos ofendidos e então tire lás como o do simpático limpa-chaminés de ontem. No resto do dia fotografo casas. Em algumas acontece aquele fenómeno comum aos cães de se tornarem parecidas com os seus donos (ou vice-versa?), e até há algumas que usam avental. Read more →

pão nosso (3)

de centeio

de centeio

Dizer pão de forma é quase um paradoxo, porque quando é de forma raramente é pão digno desse nome. Este é a excepção e presença obrigatória no guia informal dos bons pães que se vendem aqui no bairro (ver também o primeiro e o segundo que referi): o belíssimo pão de centeio em forma da Panificação das Mercês. Só se faz à quarta-feira e convém reservar de véspera. Combina tão bem com sandes tipo gourmet, com cottage, nozes e rúcula, como com a nossa gulodice preferida: barrado com manteiga e polvilhado com açúcar e canela.

de ir ao pão

dona a.

dona a.

Quando comecei a ir sozinha ao pão (deve ter sido há um quarto de século, mais ou menos), toda a gente levava o seu próprio saco de pano. Quem não levasse pagava dois ou três escudos (que devia ser quase o preço de um papo-seco) por um de plástico. Hoje em dia vêem-se muito poucos sacos de pano na padaria e consta (disse-me uma padeira) que até há uma norma que impede quem vende pão de sequer aceitar pô-lo nos ditos por razões de higiene (que paranóia, sinceramente). Eu e a Dona A. somos duas das resistentes aqui da rua. Ontem armei-me em alfaiate lisboeta dos taleigos e não resisti a pedir-lhe uma fotografia.

A propósito do que e do como comemos, veja-se, reveja-se e recomende-se nas escolas dos nossos filhos: Read more →

pão nosso

pão nosso

saco do pão

Uma das muitas coisas boas de Lisboa é o pão. Aqui no Bairro Alto pode-se comer bom pão e diferente todos os dias. Não estou a falar de pão caseiro, biológico nem gourmet, e muito menos do enganador pão quente, mas sim do bom pão da padaria, feito atrás da loja durante a madrugada, e dos que várias mercearias recebem diariamente, de trigo, milho ou centeio, vindos de outros pontos do país e feitos só de farinha, fermento, água e sal. O da fotografia foi o nosso pão de segunda-feira:

Pão do coração da Panificação das Mercês
Pronto mais ou menos a partir das 10h, de segunda a sábado, e geralmente disponível nas versões mal cozido (na foto) e bem cozido (dependendo da disposição das padeiras).
No dia seguinte, quando sobra, dá umas magníficas torradas.

O saco (ou bolsa ou taleigo) fi-lo há já umas semanas. Escolhi só tecidos que, pelos padrões e cores, pudessem ter pelo menos a minha idade e acho que ficou com um simpático ar alentejano (os tecidos são: 1, 2, 3, 4, 5). Read more →

abril

abril

abril

Depois de ver a parte de fora não posso mesmo deixar de ir ver a exposição À Esquerda da Esquerda – Documentos para a História de uma Revolução, na ZDB (acaba já dia 2). Este mural exterior, pintado sob coordenação de António Alves é a concretização de um projecto que nunca chegara a sair do papel (ver imagens da realização). Lembro-me de como gostava de olhar para os de Alcântara, por onde em miúda passava diariamente.

que limpeza

paredes limpas não dizem nada

paredes limpas não dizem nada

paredes limpas não dizem nada

Estou muito ambivalente em relação à iniciativa camarária de limpar as paredes de algumas ruas do Bairro Alto. À partida, tudo o que ajude a dissociar o Bairro do adjectivo sujo (que deve ser o primeiro a ocorrer a muita gente) parece boa ideia, mas a verdade é que quase tudo neste plano me deixa algumas reticências. Antes de mais, a questão que ocorre a qualquer mãe e mais ainda a qualquer peão (mas nem por isso aos decisionmakers que são em geral homens e automobilistas): não seria mais urgente e menos polémico começar pelo chão? Promete-se vigilância apertada e castigo imediato a quem desenhar na parede, mas jamais se viu semelhante aparato dedicado aos dejectos que tantos donos de cão deixam para trás, na rua, nos jardins e onde calhar, e que transformam qualquer passeio no Bairro numa ameaçadora corrida de obstáculos. A seguir há a questão do mapa desta limpeza: começar pela Rua do Norte, nem de longe a mais suja mas sim a mais turística e onde o comércio não tradicional está de melhor saúde, onde vão comprar roupa e cortar o cabelo se não os produtores, pelo menos muitos consumidores de street art, também é uma opção que só parece óbvia pela visibilidade (lá se foi este magnífico stencil). Não sei o que pensam do assunto os lojistas da rua, mas estou curiosa. Depois resta saber se se deve chamar vandalismo a tudo o que se faz à parede alheia: a mim chocam-me os cartazes colados selvaticamente e em camadas (apesar dos ocasionais espectáculos gráficos que proporcionam) e aos tags não reconheço interesse (só às vezes), mas choca-me igualmente ver desaparecer por exemplo os trabalhos do ABOVE. Outros terão necessariamente sensibilidades diferentes. O que me parece óbvio é que esta operação de limpeza está sobretudo (e como dizia alguém num comentário a este post no blog do Museu Efémero) a criar novas instalações para estes artistas/vândalos (riscar o que não interessa) fazerem o que gostam. Eu cá, se fosse um miúdo de hormonas aos saltos e lata de tinta na mão, agora teria ainda mais vontade.

Para pensar:

Paredes más limpias, alquileres más altos

Paredes limpias no dicen nada.

Para discutir:

Limpar o Bairro.

Para brincar:

Coloring book for graffiti artists (via Amnesia).

errata

Rua da Rosa, por m0rph3u

por aqui escrevi muitas vezes sobre o meu bairro. Lamechas, indignada e desiludida, mas também apaixonada ou sem palavras, o tom vai variando. O que tento sempre é não resvalar demasiado para o disparate. Diferente atitude teve Laurinda Alves que, no Público de ontem e no seu blog assina este texto sobre a Rua da Rosa. Para quem não saiba, a Rua da Rosa é a maior rua do Bairro Alto e simultaneamente a única que o atravessa de uma ponta à outra em que os carros circulam livremente. Por essa razão tem imenso trânsito, muitíssima poluição e passeios mais estreitos que um carrinho de bebé (não foi à toa que me tornei tão adepta dos slings). Por ter tanto trânsito, é naturalmente uma rua menos apetecível a quem vem passear do que as suas paralelas, mais esconsas mas muito mais sossegadas. Na Rua da Rosa as lojas abrem esperançosas mas fecham geralmente passados poucos meses, porque os turistas que a descem são quase todos excursionistas encarreirados directamente do autocarro (que ficou a esfumaçar no Largo da Misericórdia ou no Príncipe Real) para a casa de fados, e umas horas depois desta outra vez para aquele. Ora uma das automobilistas da via rápida da Rosa, que atravessa não uma nem duas mas três vezes por dia o Bairro Alto por este caminho, é Laurinda Alves: Subo-a de manhã, à tarde e à noite, que ela só tem um sentido e é quase toda a subir. De dentro do seu habitáculo climatizado, Laurinda Alves perde muito do que a rua é e engana~se em boa parte do que diz sobre ela. A rua não tem só um sentido. Quem não anda só de carro sabe bem que a rua também desce e que desce direitinha em direcção ao rio, o que lhe dá a algumas horas do dia uma luz especial de usufruto exclusivo dos peões.

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