nas agulhas

three

Ao contrário do que é costume, tenho três trabalhos diferentes de tricot em curso (mais o inevitável par de meias que me acompanha nos compassos de espera): um colete em linho deste livro da Kaze Kobo (será a primeira peça de verão que faço em muitos anos), um casaco em jacquard desenhado pela Mariko Mikuni para este livro e ainda um top improvisado para a E. num fio de composição insólita (para mim) mas que me agarrou pela textura e pelas cores. É uma novidade que vai estar na Retrosaria em breve.

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mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
No primeiro dia desarrumam-se todos os tecidos da loja e vêem-se muitas imagens para ficar bem claro que o patchwork não é uma coisa mas muitas coisas diferentes e que nunca por aqui foi preciso usar uma roda de cores para descobrir o que fica e o que não fica bem. As regras que dou são poucas e estão abertas a discussão: proponho escolher cores e desenhos dos quais continuemos a gostar daqui a mais de vinte anos (afinal uma manta de retalhos tem de durar bem mais do que isso), sugiro usar poucos tecidos com demasiadas cores e com cores que não existissem nos tecidos das nossas avós e insisto para que todas as costuras sejam tão bem feitas que resistam ao uso intenso que espero que as mantas venham a ter. Depois o jogo começa.

da ovelha ao novelo

fiar a lã na retrosaria
roda de fiar

A minha roda de fiar, uma great wheel ou roda portuguesa de tipo 1, foi feita em São Miguel, nos Açores, por um carpinteiro para quem esta não foi (felizmente) uma encomenda invulgar ou excepcional. É muito semelhante às rodas do Baixo Alentejo e Serra Algarvia e funciona exactamente da mesma maneira, mas tem algumas diferenças: o fuso é de madeira e não de ferro, a roda propriamente dita é bastante maior e não tem manivela (para a fazermos girar pressionamos os raios na direcção desejada) e o suporte do fuso está montado em cima do banco da roda e não do lado esquerdo deste.

fiar a lã na retrosaria
fiar a lã na retrosaria

No workshop deste Sábado foi óptimo ter mais técnicas para partilhar com quem veio aprender a ir da ovelha ao novelo. Além do fuso, claro, todos puderam experimentar fiar na roda e também num caneleiro de ferro do Baixo Minho (caneleiro de tipo 1). Estes caneleiros (de que a Joana Sequeira fala aqui), ainda que muito elementares e pouco produtivos, podem ser usados com a mesma técnica da roda para fiar e torcer fios de qualquer espessura.

PS: um bocadinho do que se fez no Sábado.

fiar a lã na retrosaria

notícias magazine

notícias magazine

Saiu ontem na Notícias Magazine um artigo sobre tricot. Lá estou, a fazer meia, ao lado da Vera e outras pessoas. Como o artigo é curto, aqui ficam as respostas que dei à jornalista Ana Pago a propósito do tema.

Nome? Idade? Formação/profissão?
Rosa Pomar. 39. Formação de base: Pós-graduada em História Medieval pela FCSH UNL. Também frequentei os cursos de Desenho e Ilustração do Ar.Co. Nos últimos anos tenho tido muita formação “informal” com mestres e mestras nas áreas em que trabalho atualmente. Profissão: várias. Investigadora na área dos têxteis tradicionais portugueses, micro-empresária, “ensinadora” de técnicas têxteis, “fazedora” (como se traduz “maker”?), autora do livro Malhas Portuguesas sobre a história e a técnica do tricot em Portugal, blogger, mãe.

Que espaço ocupa o tricot na sua vida e como o concilia com o resto? Como é que tudo começou para si a este nível?
O tricot (eu prefiro dizer a malha) é uma técnica que permite produzir peças de roupa apenas com recurso a dois ou cinco pauzinhos e fio. Visto por esse prisma é uma coisa tão útil ou importante como saber plantar batatas ou amassar um pão – uma espécie de regresso (ou progresso em direcção) ao mais básico, ao mais fundamental. Comecei a fazer malha como muitas pessoas da minha geração: quando era pequena (no meu caso aos 7 anos) pedi a uma prima um pouco mais velha que me ensinasse durante umas férias. Ela vivia no Porto e eu em Lisboa, por isso o que não aprendi com ela tive de ir inventando, experimentando, porque em casa não tinha com quem tirar as dúvidas. Fiz a minha primeira camisola aos doze anos, mas como demorei algum tempo quando a terminei já não me servia. Nessa altura o tricot era apenas uma de muitas técnicas que fui experimentando, quase sempre com a minha mãe, que enchiam as tardes e serviam para fazer prendas de Natal: macramé, arroiolos, alguma costura, tecelagem naqueles teares pequenos de madeira (que agora estão completamente em voga outra vez), crochet tunisino… Durante a adolescência continuei a fazer malha, apesar de ser olhada de soslaio pelas minhas amigas, fossem gorros para o meu primeiro namorado ou prendas para o novo bebé de uns amigos. Podia passar meses sem pegar nas agulhas e ter um cesto de projectos que nunca acabei, mas era uma coisa presente na minha vida. Actualmente faço malha quase todos os dias, seja porque uma das minhas filhas precisa de uma camisola nova, porque estou a planear o meu próximo fio ou porque uma aluna que veio aprender uma técnica qualquer numa das minhas “consultas” de tricot.

Como se explica que o tricot seja hoje uma tendência tão marcante quando, ainda não há muitos anos, não se via com bons olhos que uma mulher cosmopolita tricotasse? O que mudou entretanto?
Estes fenómenos são cíclicos. A última época em que o tricot esteve muito em voga terminou nos anos 80 e este ressurgimento que estamos a viver agora começou já no início do século XXI, muito ligado à generalização do acesso à internet e ao fenómeno dos blogs. Há algum tempo escrevi um texto sobre a mudança de mentalidades desde o momento em que organizei o primeiro encontro de tricot em Lisboa, em Setembro de 2004. Nessa altura era uma ideia quase subversiva: estávamos a fazer em público aquilo que se se fazia era em casa, longe dos olhares reprovadores de quem achava, como a maioria, que fazer malha não só era coisa de velhas como não ficava bem a mulheres cultas e independentes. Nesse primeiro encontro fomos só três, o que mostra bem o quão “anormal” era a ideia. Para dar ideia da mudança veja-se que em 2014 fui convidada pelo Pavilhão do Conhecimento para organizar um encontro de tricot (o que seria impensável dez anos antes). Apareceram dezenas e dezenas de pessoas, não havia onde sentar toda a gente e ninguém queria ir para casa à hora marcada! O que é que mudou? Sobretudo o sentimento de comunidade que se gerou nas pessoas que fazem malha e usam a internet para trocar ideias, mostrar os seus trabalhos e procurar inspiração – se há tanta gente como eu, que gosta disto como eu, então por que razão me hei-de sentir esquisita? Posso em vez disso sentir orgulho, é muito melhor! Mas atenção, continua a haver preconceito. Não sei se é uma coisa particularmente portuguesa, mas colectivamente (por muito que os novos agricultores, carpinteiros, cozinheiros e fazedores de coisas em geral estejam a contribuir de forma fantástica para combater essa ideia) continuamos a desdenhar o conhecimento prático e o trabalho do corpo relativamente a qualquer profissão que implique usar apenas a cabeça e a ponta dos dedos. Basta olhar para as salas de aulas dos nossos filhos: tirando as aulas de ginástica não lhes é exigido nada que não possam fazer com uma mão só. E isso contribuiu irreversivelmente para que quem, fora da cidade, conserva os outros saberes, tenha passado a desvalorizá-los, a desvalorizar-se. Perdi a conta aos teares destruídos na lareira, às vezes que ouvi artífices dizer “ó menina, hoje em dia ninguém dá valor a isso, não vale a pena!”.

Em que é que se inspira para criar? Que peças costuma fazer?
Essa pergunta da inspiração é uma espécie de coisa obrigatória nestas entrevistas, mas não tenho uma resposta. Tenho uma bagagem de referências, de imagens, de momentos. Uma bagagem que se transforma permanentemente com as novas impressões que ficaram de cada dia, seja porque passei a manhã com uma das últimas fiandeiras da ilha de São Miguel ou porque me dou ao luxo de passar pelo menos dois dias por mês na Biblioteca Nacional a ler seja o que for o que me apetecer mais ou menos a propósito dos meus temas de eleição ou porque reparei num mosaico hidráulico particularmente bonito numa rua de Lisboa. Aquilo que se chama inspiração deve ser o sumo de tudo isso, não sei. Nunca andei atrás dela, é ela que anda atrás de mim. Quanto às peças que faço também não tenho uma resposta pronta, porque varia imenso. Neste momento tenho em mãos um enorme casaco de tricot que desenhei com motivos retirados de uma manta alentejana antiga. Antes dele acabei uma camisola para a minha filha mais velha e, no meu tear, um tapete tecido a partir de calças de ganga e t-shirts velhas. Ah, e tenho sempre um par de meias em curso, porque são o trabalho ideal para fazer em transportes ou momentos de espera.

Qual a que mais gozo lhe deu a tricotar até à data? Alguma história especial associada a essa em particular?
É impossível escolher, cada uma tem o seu contexto, a sua história. Adoro tricotar para as minhas filhas, vê-las aconchegadas por uma camisola que nasceu nas minhas mãos, ainda mais se for feita num dos fios que tenho criado. Em 1994 tinha 18 anos e passei umas semanas como voluntária no Campo Arqueológico de Mértola. Nessa altura reparei nuns novelos de lã fiada à mão, muito macia e cor de café com leite que havia na Oficina de Tecelagem. Vim para Lisboa como todos os que tive dinheiro para comprar e fiz uma camisola que usei anos a fio. É uma peça muito marcante na minha vida porque foi a que me pôs a pensar na questão da origem da lã – porque razão nas lojas de Lisboa só havia novelos de lã estrangeira (quando não eram de fibras sintéticas) se existia lã portuguesa tão bonita? E para onde ia afinal a lã das ovelhas que vemos da janela do carro quando vamos na estrada?

Quanto tempo leva, em média, a conceber e confecionar cada uma? Quais as maiores dificuldades, de um modo geral?
Depende da espessura do fio, do tamanho da peça e sobretudo da pressa em vê-la acabada. Peças complexas, como trabalhos em jacquard (com fios de muitas cores diferentes) podem exigir os serões de um mês inteiro. Como não tenho formação em design têxtil, quando concebo peças de raiz às vezes ando um bocado à luta com a engenharia da coisa. Ainda por cima tenho a mania de querer acertar à primeira. Mas o tricot dá-nos, entre outras, uma lição que acho muito bonita e que procuro transmitir a quem aprende comigo: fazer e desmanchar, tudo é trabalhar. Às vezes é mesmo importante saber andar para trás para depois andar para a frente de uma maneira mais certa.

Que técnicas existem ao certo e quais as mais correntemente utilizadas?
O tricot e o crochet são as duas técnicas mais difundidas dentro da família das malhas. Exigem uma ou mais agulhas e um fio contínuo e, na sua essência, consistem numa laçada inicial pela qual é passado o seio do fio – formando uma nova laçada – repetindo-se este gesto sucessivamente. Depois o que há são maneiras infindas de realizar esse movimento, essa criação dos novos pontos ou malhas a partir dos que já temos nas agulhas. Na malha falamos sobretudo da liga e da meia e em Portugal quase toda a gente começa por aprender o ponto de liga porque a nossa técnica tradicional (sim, em Portugal faz-se tricot de maneira diferente de grande parte do mundo) faz com que esse ponto seja mais simples de executar do que o de meia.

E em relação aos materiais: temos uma boa oferta no país? Onde costuma comprar os seus?
Como eu também produzo e vendo materiais sou um bocado suspeita para responder a essa questão! O nascimento da Retrosaria partiu precisamente da minha frustração quando procurava bons tecidos e bons fios para fazer as minhas peças. Aqui há dez anos era uma missão impossível! Daí ter começado por importar muitos materiais, que vendia inicialmente apenas online. A loja física abriu há cinco anos, num segundo andar junto à Bica, em Lisboa. Nestes últimos anos o meu foco principal tem sido o de encontrar e facultar o acesso a materiais da melhor qualidade mas de origem portuguesa – daí ter começado a produzir os meus próprios fios de lã para tricot, feitos de lã de ovelhas de raças autóctones portuguesas, e de andar sempre à procura de bons tecidos produzidos em Portugal, para que quem gosta de costura e patchwork não esteja sempre na dependência dos tecidos americanos e japoneses que são os que dominam nesta área.

O que é preciso para alguém começar a tricotar? É uma arte fácil de aprender? E uma ocupação cara ou, pelo contrário, acessível a todos quantos queiram aventurar-se neste universo?

Dois pauzinhos, um fio e vontade, mais nada. O ideal é aprender com uma amiga, uma avó ou outra pessoa que esteja disponível para nos mostrar as vezes que forem necessárias como se puxa o fio do trabalho por dentro das malhas que estão na agulha, mas hoje em dia muitas pessoas aprendem no YouTube, nos livros ou em workshops. Vale a pena pensar que até há muito poucas gerações se aprendia a fazer malha pelos sete oito anos e com pouco mais que essa idade já se faziam meias e outras peças de alguma complexidade. É de facto uma técnica ao alcance de qualquer pessoa. E é uma arte totalmente acessível, em casa dos pais ou de uma tia há de certeza uns pares de agulhas e uns novelos esquecidos que podemos usar para as primeiras experiências. Por outro lado, quem toma verdadeiramente o gosto pelo tricot e aperfeiçoa a técnica ao ponto de fazer camisolas e outras peças maiores para usar no dia-a-dia acaba por ter prazer em investir em bons materiais e bons fios. Mas é um investimento que compensa largamente: uma camisola feita à mão em bons fios de fibras naturais pode durar anos e anos, nada se lhe compara!

biquinhos de crochet

biquinhos de crochet
[instagram] #maximalism > beautyfying everyday kitchen towels with crochet edgings is the pastime of choice of uncountable portuguese (older) women, thus keeping their hands busy at times once used for spinning, mending or knitting socks. large bold ‘joyful’ prints and bright yarns are always preferred over lighter ‘minimalistic’ palettes, discarded as too plain or simply ‘sad’.

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