mondegueira

churra mondegueira
churra mondegueira
mondegueira

Muita da nossa lã vale menos do que a mão de obra necessária para a tosquiar (a lã da maioria das nossas raças churras vale em geral menos de €0.25/kg). A sua progressiva desvalorização ao longo dos últimos cinquenta anos criou uma espécie de ciclo vicioso difícil de quebrar: quanto menos vale a lã menos o pastor se preocupa com ela -> não vale a pena escolher e cruzar os exemplares com lã de melhor qualidade -> a lã do rebanho piora de geração em geração -> a falta de qualidade da lã fá-la valer cada vez menos -> …
A história das raças também me parece muitas vezes mal contada, com os estudos a dizer umas coisas e os pastores outras e o cruzamento entre a investigação das ciências duras e os dados etnográficos eternamente por fazer.
Em Figueira de Castelo Rodrigo voltei a cruzar-me com a raça Churra Mondegueira, que conhecia de perto do Museu dos Lanifícios da Covilhã. Apesar de não ter chegado a escrever sobre esses dias, no ano passado fiz uma valiosa residência no museu onde, entre muitas outras coisas, trabalhei com a lã das duas ovelhas mondegueiras que lá moram. A sua característica mais interessante é ser, de todas as que conheço de perto, a única raça double coated (lamentavelmente não sei como se diz em português), ou seja com um velo composto por dois tipos diferentes de fibras: uma camada exterior extremamente grosseira e uma outra, junto à pele, muito fina e macia, a lembrar as fibras de alpaca. Hoje em dia a lã da maioria das ovelhas mondegueiras faz pensar em tapetes resistentes (oxalá houvera quem os fizesse) e pouco mais. Mas como seria há três gerações atrás? E como poderia voltar a ser?

cobertor

cobertor
cobertor
cobertor

O novo fio da Retrosaria chama-se Cobertor e é o fio com que são feitos os cobertores de papa. É espesso e no novelo o toque não é suave. A textura e torção fazem lembrar os fios islandeses com que se fazem as camisolas lopi. Aquilo que o torna mesmo especial, para além dos 500 anos de história quase desconhecida à qual espero voltar por aqui, é o que se lhe pode fazer depois de o tricotarmos: com uma pequena carda ou uma escova de aço para cães pode levantar-se facilmente a camada de pêlo densa e fofa que caracteriza os melhores cobertores de papa. A paleta que criei para este fio tem doze cores, mais o branco amarelado e o castanho naturais das ovelhas que lhe dão vida. Agora sonho vê-lo transformado em casacos e outras coisas boas de vestir no Inverno.

PS: o belíssimo rótulo é da responsabilidade do Lord Mantraste.

azulejos (parte 2)

portugal by edward bawden
Vista de Lisboa por Edward Bawden, Motif 9 (Linocuts of Portugal), 1962.

O cartaz que fiz há poucos dias transformou-se numa espécie de meme e ganhou vida própria, no facebook, instagram e em vários sites. Foi uma boa surpresa perceber que está a abrir os olhos a muita gente, mas foi uma surpresa ainda maior receber algum hate mail e comentários indignados de antiquários que vêem na mensagem um ataque à sua profissão, por isso achei melhor esclarecer alguns pontos (e relembro que comentários anónimos não serão publicados):
Quero sobretudo que se entenda que esta mensagem não diz nem pretende que se subentenda que toda a venda de azulejos antigos (seja por antiquários ou feirantes) é ilegal. O que defendo há anos (e reforço o paralelismo que fiz com a venda de marfim no post anterior) é que o comércio de azulejos antigos, por muito legal que seja, estimula a pilhagem sistemática e continuada das nossas fachadas, à qual assistimos passivamente. Não acho que o problema se resolva com uma proibição (já se sabe no que é que isso dá), mas acredito que chamar a atenção para o problema, sobretudo a atenção de quem vem de fora, é essencial.
Para quem coloca a ênfase toda na questão da legalidade ou ilegalidade da venda, deixo um exemplo chocante: o proprietário de um edifício cuja fachada é revestida a azulejo pode* substituir todos os azulejos antigos** por azulejos modernos e vender os antigos como e a quem bem lhe apetecer. É perfeitamente legal e acontece. Mas é defensável? Devia ser permitido? Acontecia se não houvesse ninguém interessado em comprar? No bairro em que cresci vi acontecer em vários prédios.
Honestamente, o que me interessa não é tanto saber se foram vendidos por um antiquário idóneo, um bandido altamente especializado ou alguém que precisa de assegurar a próxima dose. O problema está em terem sido tirados de onde estavam por haver gente disposta a comprá-los.
*em Lisboa não pode, mas só desde 2013.
**a não ser que estejam classificados.

azulejos

rua da costa

De passeio ontem por Lisboa, a caminho de Alcântara. Temos esta sorte, de vivermos rodeados de padrões no chão e nas paredes. Estamos habituados, mimados, achamos que vai ser sempre assim.
Houve uma altura em que as pessoas deixaram de comprar objectos em marfim para não contribuírem para a extinção dos elefantes. Aqui passa-se uma coisa semelhante. Enquanto não se proibir a venda de azulejos antigos que não tenham uma origem certificada (há-de haver maneira de fazer isso), podemos desincentivar activamente a sua compra para prevenir a extinção de Lisboa. É passar a palavra.

please don't buy azulejos
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Souvenirs que não magoam: livros, blusas, cadernos e postais. E outros azulejos.

o fuso de tipo 4

fiandeira

Benjamim Pereira classificou os fusos portugueses em três tipos:
O tipo 1, com haste em madeira e volante (também chamado cossoiro, aquele disco em baixo que lhe dá equilíbrio e o ajuda a girar mais depressa), que ainda se vê no nordeste transmontano e, residualmente, nos Açores.
O tipo 2 compreende os fusos em que a haste de madeira é o elemento principal ou único. Podem ser bastante rudes ou muitíssimo delicados, podem ser pouco mais do que um pau ou ser elegantemente bojudos em baixo para girarem melhor, podem ser mesmo só em madeira ou ter o topo da haste em metal para fiarem mais fino.
O tipo 3 corresponde aos fusos do Baixo Alentejo e Algarve (como estes que estão na Retrosaria), que consta serem os mais directos descendentes dos fusos romanos. A haste é em metal e o volante ou é também em metal e forma uma peça única com a haste ou é um disco em cortiça. São muitíssimo mais pesados do que os outros dois tipos de fusos e usam-se (hoje em dia muito pouco) sobretudo para fiar o linho.
Mas e se houvesse outro tipo de fuso em Portugal, um fuso diferente que chegue para justificar dizer que pertence a outro tipo? Um fuso cujo parente mais próximo vive no país basco, no outro extremo da Península? Em Monchique, no Algarve, o linho da Sra. Maria Nunes é torcido num objecto chamado fiandeira. O da fotografia foi feito pelo marido mas a partir de um igual vindo de gerações anteriores. Por todo o país há fusos usados só para torcer (torcer é juntar dois fios e dar-lhes uma torção extra no sentido oposto ao da fiação para que fiquem mais equilibrados e resistentes), a que se chama frequentemente parafuso ou parafusa. Ora a fiandeira de Monchique é idêntica ao txoatile ou txabalie do país Basco e diferente de todos os outros fusos portugueses: tem uma haste em madeira que forma no seu topo um gancho (aproveitando nos exemplos tradicionais a forma da própria madeira) e um volante em cortiça que serve de bobine para o fio já fiado ou torcido. Para mim foi a descoberta do ano.

Txoatile
Txoatile, el huso vasco. Imagem ©Mundo Lanar.

romaria

Romaria
Romaria

O primeiro de todos os galões nasceu ainda antes da Retrosaria. Hoje estreamos um novo, mais uma vez da autoria de um ilustrador convidado (depois da Camilla Engman e da Helen Dardik), o Bruno Reis Santos, aka Lord Mantraste. É uma romaria com vacas, cavalos e (claro) ovelhas, e estou curiosa para ver o que fazem com ele. Veio acompanhado de uma ilustração linda, porque há quem queira coser o galão e há quem prefira pô-lo na parede.

cobertores de papa

cobertor de papa
cobertor de papa

A história recente dos cobertores de papa está cheia de voltas difíceis de entender e de aceitar. Para trás não há grande investigação feita (apesar de darem nome a duas publicações da Câmara da Guarda) nem há quem tenha ainda percebido que papa é esta ou este que lhes está no nome. Fui novamente atrás deles por causa de mais uma aventura da Retrosaria (a mostrar em Setembro) e descobri que a meio do século XVI já se faziam (chamados assim tal e qual) em Castelo de Vide e também que já se usavam nas estalagens de Lisboa, onde eram considerados mais luxuosos do que as mantas alentejanas.
O que é bom saber é que a produção artesanal dos cobertores de papa foi agarrada in extremis pela Escola de Artes e Ofícios do Centro Social e Paroquial de Maçaínhas. Há um jovem tecelão a trabalhar e uma pequena equipa com garra e boas ideias para que este ex-libris da tecelagem portuguesa se mantenha de boa saúde.

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