17 semanas

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Quando fui mãe aos 27 e aos 31 anos não me passava pela cabeça ser mãe aos 40. Aliás a ideia de ser mãe aos 40 parecia-me muito estranha, quase despropositada (os 40 pareciam-me uma idade longínqua e provecta). A verdade é que aos 27 fui a primeira das minhas amigas mais próximas a ser mãe e aos 40 conheço uma série de mulheres que acabam de se estrear na maternidade ou de ter mais um bebé, ou que ainda estão à espera do momento certo (coisa que tenho a certeza de que não existe).
Bastante desligada do universo das gravidezes e bebés há quase nove anos, parece-me que entrei num admirável mundo novo em que os toddlers comem no restaurante de tablet na mão e é considerado normal empurrar rua acima no carrinho uma criança de 4 ou 5 anos. Entretanto, as lojas de roupa para grávida parecem ter desaparecido da face da terra (mercê da descida das cinturas na moda de há uns anos ou da crise, vá-se lá saber) e eu sem uma faixa para substituir a que tinha e emprestei a fundo perdido (o melhor será fazer uma), os anti-vaxxers deixaram de ser uma minoria de extremistas para representarem um perigo real para a saúde dos filhos dos outros, a roupa de bebé que vejo por aí não me tenta minimamente (vêm aí vários pares de mini-calças de tricot de certeza) e a escola parece-me um sítio cada vez menos interessante para estar, ainda que esse seja todo um outro assunto.
De resto, para quem se interrogue sobre a questão, estar grávida aos 30 e aos 39 é muito parecido, ou quase igual, ainda que desta vez às 17 semanas já tenha uma barriga quase óbvia: apetece na mesma dormir muito, comer bem, fugir de tudo o que cheire esquisito e fazer o ninho.

tear

tear
Centuries ago someone built a loom. Generation after generation, weavers have used it, each one repairing and replacing any part that was broken. After many many years all the original parts were gone but the loom was the same. Or was it? How old is this loom? ~instagram

mondegueira

mondegueira

mondegueira

Fiei na roda uma maçaroca da lã de ovelha churra mondegueira que lavei esta semana. Do que tenho observado, os velos desta raça são compostos por três tipos de fibras diferentes: uma camada exterior de fibras extremamente longas, grossas e lisas (que quando fiadas sozinhas produzem um fio que lembra a corda de sisal), uma camada interior de fibras muito mais curtas, finas e ligeiramente frisadas e ainda, por vezes, um tipo de fibras que estão soltas no meio das outras, grossas, curtas, ponteagudas e levemente frisadas, que já tenho ouvido chamar fios de prata e que só atrapalham (também as tenho visto nos velos de bordaleira da Serra da Estrela).
O fio que resulta desta lã não serve para fazer camisolas, mas daria uns belos tapetes. Pergunto-me que destino lhe é actualmente dado, visto que – apesar de comprada a baixíssimo preço – é canalizada para o circuito industrial. Desta maçaroca acho que vou fazer uma luva esfoliante. Tenho a certeza de que resulta e é totalmente livre dos abomináveis micro-plásticos que povoam a maioria dos produtos para o mesmo efeito.

como lavar um velo de lã

mondegueira

É uma pergunta que me fazem muitas vezes, por isso aqui ficam as instruções para quem tenha em mãos um ou mais velos e queira dar-lhes uso. O das fotografias é de Churra Mondegueira, uma raça autóctone de que já falei aqui. É uma lã extremamente longa, grossa e nada frisada, com a qual vou ter uma aventura no próximo sábado.

Consoante o uso que queremos dar à lã a escolha e lavagem podem ser feitas de forma muito mais complexa e demorada, mas este método não é nada mau para começar.

1. Estender o velo numa superfície limpa e retirar a lã mais suja, que corresponde aos limites exteriores daquele. Esta lã é a mais curta e grosseira, não merecendo na maioria das vezes o trabalho de a limparmos manualmente (pode ir para o compostor ou para a terra, porque o estrume das ovelhas é um adubo de óptima qualidade). Se o velo não estiver inteiro tiram-se todas as porções de lã que pareça demasiado suja.

2. Retirar toda a matéria vegetal e outras impurezas visíveis que a nossa paciência permitir. Quanto mais tempo dedicarmos a esta tarefa mais simples será o processamento da lã depois da lavagem.

mondegueira

3. Encher um alguidar grande com água muito quente e pôr cuidadosamente a lã lá dentro. Toda a lã deve ficar submersa mas não podemos agitá-la no processo ou ficará feltrada (quanto mais fina e frisada for a lã mais cuidado é preciso ter para que não feltre). Muitas pessoas põem sabão ou detergente nesta água, mas eu não costumo usar. A temperatura elevada é suficiente para que a suarda comece de imediato a dissolver-se – a água fica rapidamente com um tom castanho dourado característico e carregada de lanolina (lavar lã deixa as mãos muito macias).

4. Passados alguns minutos, escorrer a água da lavagem (de preferência para a terra para aproveitar os nutrientes) e repetir o processo se a lã ainda estiver muito suja, sempre com cuidado para não a agitar.

5. Deixar a lã a escorrer até que boa parte da água tenha saído e que a temperatura baixe consideravelmente.

mondegueira

6. Quando a lã estiver à temperatura ambiente está pronta para ser enxaguada com água fria. Geralmente faço esta parte do processo na máquina de lavar: Ponho a lã em sacos daqueles de rede que se usam para a roupa delicada e meto na máquina, no programa de lavagem de lãs, com um bocadinho de detergente adequado. Só recomendo este processo se o programa de lavagem de lãs for mesmo muito suave, pois de outra forma a lã ficará feltrada.

7. Estender a lã horizontalmente num local arejado (mas sem vento!) e deixá-la secar.

mondegueira

Quem quiser ver fotografias mesmo bonitas deste processo feito à maneira do baixo Alentejo só tem de ir até ao blog da Diane. Em 2011 também estive lá, a aprender.

the shame of selling*

cuecas

Às vezes não é nada fácil ter uma loja, viver de ter uma loja. Digo isto no sentido moral, porque há dias (quase todos) em que não apetece escrever loas a produtos, aliás, em que não apetece mesmo nada pensar nas coisas como produtos e nas coisas todas que trabalhar com produtos pressupõe.

A lot of the reason why our efforts to sell things go wrong is an underlying feeling that ‘selling’ is a bad thing to do. We’ve internalised an image of selling drawn from capitalism’s worst moments, which gives rise to a suspicion that selling somehow injures those to whom we sell.*

Num piscar de olhos passámos a estar rodeados de produtos genuínos, tradicionais, portugueses, cheios de heritage e authenticity. Aqui em Lisboa já não há um quarteirão livre de lojas que não sejam (no nome) antigas ou do bairro, uma rua sem andorinhas sobre cortiça com padrões de azulejo, um espaço em que não ecoe um discurso (às vezes nem há discurso) que de tão batido se tornou oco. Como se todos esses adjectivos de tão abusados tivessem deixado de significar fosse o que fosse ou, ainda pior, se tivessem tornado fáceis, óbvios, trendy, os melhores para vender qualquer coisa. E no meio de tudo isto há, claro, muitas coisas novas e bonitas nascidas desta espécie de redescoberta de uma portugalidade idealizada (um fenómeno que adorava ver estudado por alguém numa perspectiva comparativa com o que se passou nos anos 30). Mas a mim, confesso, esgota-me os adjectivos – e quando trago cestos, colheres ou botas para a loja (os meus cestos, colheres e botas preferidos) não sei o que dizer deles. Talvez mesmo só que são cestos, colheres e botas. Os meus preferidos. Quem lhes tocar vai perceber porquê sem eu ter de explicar (ou então não).

Honourable salesmanship requires a sense of the possibility of honourable capitalism. This doesn’t mean a world in which we’re only trying to sell organic beans and rope sandals. Many companies are already doing good – they’re selling reliable dishwashers and nicely designed garden furniture, good quality skin moisturiser or excellent paper clips. But even these companies often have an unhelpful sense of what they need to tell the world in order to sell their products – and in the process, they lose sight of the good they actually do. Good salesmanship starts with a feeling that there can be such a thing as selling someone something they really require to flourish. It means overcoming the shame of being in sales.*

Na fotografia estão umas cuecas de 100% algodão, daquelas que na Rua dos Fanqueiros ainda se compram por dois euros. Curiosamente correspondem àquilo que o New York Times diz ser a nova tendência em termos de roupa interior de mulher (só precisam de um elástico um bocadinho mais macio e podem fazer concorrência a estas, fica a ideia para alguma empreendedora que aqui passe). Têm montes de authenticity e heritage, mas desconfio que as lojas que as vendem vão dar lugar a mais um ou dez hotéis entretanto.

*Alain de Botton, How to Sell.

uma vida simples

estação
alentejo sem rede
taleigo

Vou para estar e raramente me faz falta contar que fui e ao que fui. Há uma calma qualquer que é nova (deve ser da idade). Depois tenho pena porque sempre tive diários, sempre foram o meu espelho, a minha garantia de ter feito, ter estado, ter sido. Não vim aqui gravar o dia em que pela primeira vez ordenhei uma cabra nem o inesquecível serão passado a fazer queijo ou o sorriso da A. à conquista das ruas da vila na sua nova bicicleta. Às vezes só viver é tudo.

lar

nas agulhas

three

Ao contrário do que é costume, tenho três trabalhos diferentes de tricot em curso (mais o inevitável par de meias que me acompanha nos compassos de espera): um colete em linho deste livro da Kaze Kobo (será a primeira peça de verão que faço em muitos anos), um casaco em jacquard desenhado pela Mariko Mikuni para este livro e ainda um top improvisado para a E. num fio de composição insólita (para mim) mas que me agarrou pela textura e pelas cores. É uma novidade que vai estar na Retrosaria em breve.

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mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
mantas de retalhos
No primeiro dia desarrumam-se todos os tecidos da loja e vêem-se muitas imagens para ficar bem claro que o patchwork não é uma coisa mas muitas coisas diferentes e que nunca por aqui foi preciso usar uma roda de cores para descobrir o que fica e o que não fica bem. As regras que dou são poucas e estão abertas a discussão: proponho escolher cores e desenhos dos quais continuemos a gostar daqui a mais de vinte anos (afinal uma manta de retalhos tem de durar bem mais do que isso), sugiro usar poucos tecidos com demasiadas cores e com cores que não existissem nos tecidos das nossas avós e insisto para que todas as costuras sejam tão bem feitas que resistam ao uso intenso que espero que as mantas venham a ter. Depois o jogo começa.

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