ensinar a lã

da ovelha ao novelo

Há uns meses fomos passear à Quinta do Pisão levados pela informação de que era um bom sítio para passear com uma horta biológica onde poderíamos colher nós próprios o que quiséssemos trazer para casa. O nome era desde logo sugestivo pela ligação óbvia aos lanifícios (apesar de só depois ter ido ler sobre a fábrica que aí chegou a funcionar).

da ovelha ao novelo

A horta encantou-me (e recomendo-a a toda a gente), mas o que mais me surpreendeu foi dar de caras com um rebanho de ovelhas que reconheci como sendo da raça Campaniça aqui mesmo à beira de Lisboa. No dia seguinte estava ao telefone com os responsáveis pela Quinta, a quem propus um dia de actividades em torno da lã deste rebanho. Os workshops Da Ovelha ao Novelo da Retrosaria, dentro e fora de portas, têm corrido sempre muito bem mas aqui quis aproveitar a oportunidade para levar comigo outras mulheres da lã com os seus saberes. A Vânia, a Ana Rita e a Fátima não hesitaram em juntar-se e as inscrições esgotaram num ápice.

da ovelha ao novelo
da ovelha ao novelo
da ovelha ao novelo

Foi uma tarde em cheio, com dezenas de famílias que quiseram vir experimentar feltrar, fiar, tingir e tecer.

da ovelha ao novelo

lanofabril

lanofabril gitlã

Covilhã, 1970. A empresa Lanofabril publica Livro de Tricot, um mix revista-catálogo que não sei se foi filho único mas merece sem dúvida um lugar na história do tricot em Portugal (lamento só me ter cruzado agora com ele, porque gostava de o ter mencionado no Malhas Portuguesas). Numa época em que as fibras sintéticas começavam a impor-se no mercado dos fios para tricot, apresentadas como luminosas e infeltráveis, esta empresa – onde trabalhavam mais de 400 pessoas – tinha montado um elaborado sistema de venda por correspondência com base neste objecto que era, ao mesmo tempo, mostruário de fios, catálogo para encomendas e livro de tricot.

lanofabril gitlã

Da descrição dos produtos aos cenários das fotografias, passando pelos nomes dos fios, todos os pormenores deste Livro são curiosos e fazem dele um interessante objecto de estudo. Foi sem dúvida objecto de um grande investimento a vários níveis, e adoraria saber se foi copiado de um modelo estrangeiro e quantos anos terá durado depois do enorme sucesso relatado para o primeiro ano de existência em que a empresa terá vendido 14 toneladas de novelos(!). Alguma mãe ou avó se lembrará destes fios?

lanofabril gitlã

As agulhas são de cor cinza estudada para não fatigar a vista e estão disponíveis em tamanhos INCRÍVEIS (15 e 20mm) com os quais as clientes poderão fazer REPENTINAMENTE as suas obras.
As fotografias parecem ter sido tiradas na própria fábrica e arredores e os modelos são muito provavelmente familiares e funcionários. Os nomes das cores dos fios são um dos meus pormenores preferidos: há paletas com nomes de pássaros, outras com diminutivos, outras com virtudes.

lanofabril gitlã
lanofabril gitlã

As explicações dos muitos modelos, sendo muito mais sintéticas do que está actualmente em voga, não parecem impossíveis de seguir.

lanofabril gitlã
lanofabril gitlã
lanofabril gitlã

A Lanofabril terá fechado portas entre 1989 e 1993.
Se houvesse em Portugal alguma coisa semelhante à Knitting Reference Library este Livro de Tricô estaria certamente lá.

as botas de pestana

bota de pestana

Nunca me imaginei a desenhar sapatos mas há uns meses dei por mim a rabiscar um par de botas que entretanto ganharam vida.
No início de 2015 (o respectivo post ficou eternamente por escrever) passei a vender botas alentejanas na Retrosaria. O assunto das botas, como o do mosaico hidráulico, já tinha atingido na loja o estatuto de piada porque não havia semana em que não recebêssemos telefonemas a perguntar se os vendíamos (botas e mosaico). Continuo até hoje a encaminhar quem anda à procura de mosaico hidráulico para esta FAQ mas decidi que estava na altura de ir descobrir quem fazia as minhas botas preferidas e, porque não, de as ter à venda.

fazer

Além do meu modelo preferido, os borzeguins, que calço dia sim, dia sim na metade do ano em que não ando de sandálias, redescobri nessa pesquisa estas botas da Primeira Guerra que tinha fotografado numa exposição na Cordoaria Nacional uns anos antes. Trouxe-os comigo, a Retrosaria passou a ser também um bocadinho uma sapataria e as nossas botas, que são alentejanas como as mantas de Minde são alentejanas (porque na verdade, como quase todas as botas alentejanas, são feitas na zona Oeste), começaram a voar para muitos destinos.

No ano passado cruzei-me com um modelo antigo de bota, hoje quase desaparecido, que não conhecia e que me cativou: a bota de pestana. Encontrei um par no museu de Almodôvar, terra de sapateiros, e vi outro na FIA. Em Garvão encontrei a uso o par das fotografias aqui de baixo que, graças à insistência do R., acabou por nos vir parar às mãos. Foi com base nele e no que mais me agradou nos outros que acabei a desenhar umas botas de pestana para a Retrosaria.

bota de pestana
bota de pestana

ideias de 1987

100 idées
100 idées

A Fátima, aluna do workshop desta manhã, trazia consigo um exemplar da 100 idées de Junho de 1987. Sempre que me cruzo com um número desta revista fico deliciada. Tenho alguns, comprados online ou que me foram oferecidos, mas nunca tinha folheado este, com o seu especial azulejos, uma reportagem sobre moda infantil com tecidos africanos ou a sua rubrica de compras com cadernos tipo Emílio Braga. São as tendências que são mesmo cíclicas ou o que é interessante é sempre interessante? As fotografias do casaco com azulejos levaram-me direitinha aos verões da minha infância e deram-me vontade de rever o À Flor do Mar. E de experimentar tricotá-lo, claro.

100 idées
100 idées
100 idées

alexandre
alexandre
Um gorro que fiz há dias para um amigo que fez anos. O modelo, muito básico, é um dos primeiros que publiquei por aqui e ao qual continuo a voltar regularmente. Nesta versão tricotei com Kilcarra Tweed e introduzi o nome do destinatário em jacquard logo acima do canelado.

A propósito, o meu grande crush na área do tricot de há uns dois anos para cá, e não é só porque tem um bebé quase da idade do meu: Maria Levine, para seguir no instagram e ler em entrevista aqui (está em Russo mas o google faz maravilhas). Já dei por mim a fazer o jantar enquanto a via em directo a feltrar uma camisola no lavatório.

bestiário tradicional português

bestiário tradicional português
bestiário tradicional português

Demorei a encomendar este livro, cujo título me conquistou imediatamente. De vez em quando cruzava-me com ele e a causa da hesitação era sempre a mesma: não gosto das ilustrações nem do design e as cores não são as minhas cores. Mesmo com o tema certo, o título certo, as boas críticas. Acabei por comprar e li-o de um fôlego enquanto o pequeno A2 dormia ao meu colo (é um livro infantil, entenda-se). Gostei do texto, do tom, do humor, fiquei com curiosidade pelos livros de aventuras do autor e pelo autor propriamente dito, pensei que cá em casa moram de certeza algumas Jãs enquanto embirrava porque na ilustração uma delas segura mesmo mal a roca e o fuso e a outra nem se percebe o que está a fazer (cf. este outro post e – note to self – fazer um post sobre a Bela Adormecida). É um bom livro. Tivesse o texto sido posto em mãos mais competentes (e – estou sempre a dizer isto – ilustradores de primeira são coisa que não falta em Portugal) e seria daqueles de que comprava uma dúzia para oferecer nas próximas festas de anos.
Imaginei-o ilustrado pela Susa Monteiro. Seria a minha escolha para fazer do Bestiário Tradicional Português um livro inesquecível:

A post shared by Susa Monteiro (@susamonteiro) on

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Ainda sobre livros infantis: a Sara Amado, da Prateleira de Baixo que já vem do tempo dos blogs, teve uma ideia altamente recomendável a toda a gente com crias dos 0 aos 14 (e sobretudo para os tantos de nós que estão a criar os filhos longe de cá): chama-se Pacote.

a camisola

top-down sweater
top-down sweater

Daqui a poucas semanas estreio um novo workshop na Retrosaria. Vou ensinar a fazer uma camisola em malha circular a começar por cima (top-down), num formato de aula diferente, com bastante trabalho de casa antes e entre aulas. É uma oficina intensiva, para quem já não confunde a liga com a meia e não tem medo de fazer contas. Estou muito curiosa e cheia de expectativa. Estive a ensaiar com uma nova camisola para a A., feita em Beiroa e com o decote modelado através de short rows (carreiras incompletas), uma técnica que me parece ideal para este género de trabalho. Junto à gola fiz um bordado muito simples.

top-down sweater

K=2

K=2
Lembrei-me ontem de uma das minhas páginas preferidas da internet 1.0*, da autoria de João Manuel Mimoso: chama-se Figurado industrial de Barcelos e além de ser a melhor fonte que conheço para conhecer a história do Galo de Barcelos tem uma secção dedicada às faianças kitsch que se produziram na região até aos anos 80 (?). O texto é sério mas muito cómico e desde que o descobri que olho de maneira diferente para esta tipologia de peças (aqui cruzei-me com um indiscutível K=5 com direito a um oh meu deus exclamado de mãos na cabeça).
Na fotografia está um mini cão com bola de futebol que encontrei ontem e trouxe comigo. Pelo Alentejo onde mais ando, 500km a sul de Barcelos, estes bichos ainda povoam aquelas salas de estar que toda a gente da vila tem e onde nunca está.

*muitas vezes penso que a internet é hoje em dia um sítio menos interessante do que era há dez anos, com menos pessoas a pensar e escrever com o objectivo de partilhar conhecimento (a “criação de conteúdos” tornou-se uma profissão), com muito mais conteúdo descartável (as aplicações preferidas dos adolescentes são de conteúdo descartável), etc. Não sou saudosista, mas é um tema que me interessa. Este talvez seja o melhor artigo que já li sobre o assunto: Iran’s blogfather: Facebook, Instagram and Twitter are killing the web.

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durante
Fez um ano que nasceu.
Recordo emocionada o momento abençoado que tivemos, o toque e a temperatura da pele do meu filho, o espanto absoluto, o milagre da vida.
Relembro eternamente grata a parteira que me guiou por entre as dores, me olhou nos olhos quando eu chorava ao mesmo tempo a morte da minha mãe e me disse que ia ser um parto lindo.

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